Sobre a Vida Feliz
Também conhecido como A Vida Feliz e De beata vitaTexto integral em portuguêsGratuito
IV Agostinho de Hipona Patrísticos 000386507 Agostinho de Hipona IVPreâmbulo — Capítulo 1 — Dedicatória a Mânlio Teodoro — A viagem em direção ao porto da Sabedoria
Se fosse possível atingir o porto da Filosofia — único ponto de acesso à região e à terra firme da vida feliz —, numa caminhada exclusivamente dirigida pela razão e conduzida pela vontade, talvez não fosse temerário afirmar, ó magnânimo e ilustre Teodoro, que o número dos homens a lá chegar seria ainda mais diminuto do que aqueles que atualmente aportam a esse porto, já tão raros e escassos se apresentam eles.
Com efeito, estamos lançados neste mundo, como em mar tempestuoso, e por assim dizer, ao acaso e à aventura — seja por Deus, seja pela natureza, seja pelo destino (necessitas), seja ainda por nossa própria vontade. Sucessivamente, por algumas dessas conjunturas, ou talvez, por todas elas reunidas.
A questão é muito obscura, mas tu já resolveste desvendá-la.
Poucos saberiam qual o caminho do retorno ou que esforços empenhar, caso não se levantasse alguma tempestade — considerada pelos insensatos como calamitosa —, para dirigi-lo à terra de suas ardentes aspirações. Pois são navegantes ignorantes e erradios.
Três tipos de navegantes rumo à Filosofia
Entre os homens susceptíveis de serem acolhidos pela Filosofia, creio distinguir como que três espécies de navegantes.
A primeira é daqueles que, tendo chegado à idade em que a razão domina, afastam-se da terra, mas não demasiadamente. Com pequeno impulso e algumas remadas chegam a fixar-se em algum lugar de tranquilidade, de onde manifestam sinais luminosos, por meio de obras realizadas na intenção de atingir o maior número possível de seus concidadãos, para estimulá-los a virem ao seu encalço.
A segunda espécie de navegantes, ao contrário da primeira, é constituída dos que, iludidos pelo aspecto falacioso do mar, optam por lançar-se ao longe. Ousam aventurar-se distante de sua pátria e, com frequência, esquecem-se dela. Se a esses, não sei por qual inexplicável mistério, sopra-lhes vento em poupa, perdem-se nos mais profundos abismos da miséria. Consideram-nos, porém, como fator de gozo e orgulho, pois de todo lado lhe sorri a falsa serenidade de prazeres e honras. A tais enfatuados, o que se pode desejar de mais benéfico do que algum revés ou contrariedade? E se tal não fosse suficiente, augurar que caia sobre eles forte tempestade, soprem ventos adversos para os levar de volta — mesmo chorando e gemendo — às alegrias firmes e seguras.
Nessa segunda categoria, entretanto, sucede que alguns, por não se terem arriscado longe demais, são trazidos de volta ao porto, graças a adversidades menos danosas. Tais, por exemplo, os que sofrem alguma vicissitude em seus bens ou grave dificuldade em seus negócios. A esse contato, acordam, de certa forma, no porto de onde não mais os tirará nenhuma promessa, nenhum sorriso ilusório do mar.
Finalmente, há terceira categoria de navegantes, a meio-termo entre as outras duas. Compreende os que, desde o limiar da adolescência ou após terem sido longa e prudentemente balançados pelo mar, não deixam de dar sinais de se recordarem da doce pátria, ainda que no meio de vagalhões. Poderiam então recuperá-la, de imediato, sem se deixar desviar ou atrasar. Frequentemente, porém, acontece que perdem a rota em meio a nevoeiros, ou fixam astros que declinam no horizonte. Deixam-se reter pelas doçuras do percurso. Perdem a boa oportunidade do retorno. Erram longamente e, muitas vezes, correm até o risco de naufrágio. A tais homens sucede, por vezes, que alguma infelicidade advém, em meio às suas frágeis prosperidades, como, por exemplo, uma tempestade a desbaratar seus projetos.
Serão assim reconduzidos à desejadíssima e aprazível pátria, onde recuperarão o sossego.
O escolho do orgulho
Ora, todos esses navegantes levados de diversas maneiras à terra firme da vida feliz hão de temer com veemência e evitar com suma cautela alto escolho que se ergue na entrada mesma do porto, oferecendo grandes perigos aos que aí ingressam. Ele resplandece, está revestido de tão enganosa luz, que não somente aos que chegam e se encontram na iminência do ingresso se apresenta como terra amena, prometendo satisfazer suas aspirações à terra venturosa. De igual modo, cativa e alucina os que já se encontram no porto. Isso por sua bela altura de onde os que lá se encontram comprazem-se em considerar com desdém os demais. Entretanto, fazem sinais aos que se aproximam daquela terra, para evitarem os escolhos ocultos na água. Ou, ainda, apregoam ser fácil a subida até o cimo onde se acham colocados. Indicam até com benevolência por onde devem bordejar sem perigo. Cheios da vanglória com que se pavoneiam, mostram aos outros um lugar de segurança no porto.
Ora, que outro rochedo a razão indica como temível aos que se aproximam da filosofia do que esse, da busca orgulhosa da vanglória? Pois esse rochedo é oco interiormente e sem consistência. Aos que se arriscam a caminhar sobre ele, abre-se o solo a tragá-los e sorvê-los, submergindo-os em profundas trevas. Desvia-os assim da esplêndida mansão que haviam apenas entrevisto.
Agostinho expõe as etapas de sua navegaçãoao encalço da vida feliz
Já que é assim, saiba, ó meu caro Teodoro, como para chegar até aonde aspiro, fixo os olhos sobre ti, somente sobre ti, que não cesso de considerar como o mais capaz de me ajudar.
Reconhece, insisto, entre essas três categorias de navegantes, em qual delas me encontro a teu lado, qual o lugar em que me julgo situar e que tipo de auxílio espero de ti, com total confiança.
Tendo chegado à idade de dezenove anos, após ter conhecido na escola de retórica o livro de Cícero, intitulado “Hortênsio”, senti-me inflamado de tal amor pela filosofia que pensei em me dedicar a ela sem reservas. Mas não me faltaram névoas a perturbarem minha navegação. Por muito tempo, asseguro-te, fixei os olhos sobre os astros que declinam no horizonte a induzirem-me ao erro.
Pois uma espécie de escrúpulo supersticioso e pueril retinha meu espírito longe da investigação. Ao ir crescendo, porém, consegui dissipar tais névoas. Persuadi-me de que devia crer mais naqueles que ensinam do que nos emissores de ordens para crer. Caí sob a influência de homens que sustentavam ser a luz física que percebemos com os olhos corporais digna do culto reservado à realidade suprema e divina. Não dava, porém, pleno consentimento a essas ideias. Supunha que aqueles homens escondiam, atrás de véus, grandes verdades que haveriam de me revelar a seu tempo.
Enfim, após ter discutido com eles, abandonei-os. Tendo percorrido aquele mar por muito tempo, entreguei em seguida o timão de meu barco aos acadêmicos. Foi ele então sacudido por toda espécie de ventos, em meio a vagalhões.
Finalmente, vim aportar nestas terras. Aqui aprendi a reconhecer a estrela polar (septentrionem), na qual pude confiar. Efetivamente, observei com frequência, nos sermões de nosso bispo e também em algumas conversas contigo, ó Teodoro, que da ideia de Deus deve ser excluída, absolutamente, qualquer imagem material. Diga-se o mesmo da ideia de alma, pois é ela, entre todas as realidades, a mais próxima de Deus.
Confesso-te, todavia, que o apego a uma mulher e a atração pelas honras impediam-me de voar, com prontidão, até o seio da Filosofia. Propunha-me lançar-me a velas despregadas e na força total dos remos, em direção ao porto da filosofia — como logram poucos e ditosíssimos varões — só após ter realizado aqueles meus desejos. Gozaria, então, da almejada paz!
Li entrementes algumas poucas obras de Platão, pelo qual tu te sentes fortemente atraído.
Confrontava, quando podia, o valor de tais opiniões, com a autoridade dos livros que nos transmitem os divinos mistérios. Fui abrasado de tal ardor, que se não fosse por consideração a certos amigos teria rompido todas as minhas cadeias.
Que recurso me sobrava, a não ser uma tempestade — por mim considerada como algo adverso — a vir abalar as incertezas que me retinham? Foi então que fui tomado de agudíssima dor de peito que me incapacitou de assumir por mais tempo o peso de uma profissão que me fazia, sem dúvida, navegar em direção ao rochedo das Sereias.
Renunciei a tudo e conduzi meu barco, abalado e avariado, ao suspirado porto da tranquilidade.
Insistente apelo a Mânlio Teodoro
Vês assim em que filosofia navego, presentemente, como estando dentro de ancoradouro. Todavia, é tão vasto este porto que sua extensão não exclui de todo alguma possibilidade de extravio, ainda que menos perigosamente. Pois ignoro, até agora, a que porção da terra — que sem dúvida será a única ditosa — na qual poderei atracar e desembarcar. Não piso ainda em terra firme. Sinto-me em meio a dúvidas e hesitações sobre a questão da natureza da alma.
Suplico-te, pois, em nome de tua virtude, por tua bondade e pelos vínculos e relações que costumam unir as almas, estender-me a mão. Quero dizer: estima-me e, em troca, crê que eu te estimo e que me és muito querido. Se obtiver o que desejo, bastar-me-á um ligeiro esforço para atingir, sem dificuldade, aquela vida feliz, a qual já desfrutas, como penso.
Quero te dar a conhecer minha conduta atual. Como reúno neste porto todos os meus amigos. Por aí, me conhecerás melhor, assim como o estado do meu espírito. E, visto que não encontro outro sinal melhor para me revelar a ti, pensei em te enviar o primeiro de meus diálogos — o que me parece ser o mais religioso e o mais digno de ser dedicado a teu nome. Oferta esta que julgo corresponder de modo justo a meu intento, posto que tratamos entre nós a respeito da vida feliz. Nada vejo de mais apropriado do que tal vida, a merecer o título de dom de Deus.
Tua eloquência não me intimida, pois não posso temer o que amo, embora não possa atingir a tua medida. Menos ainda temo, na verdade, a tua alta posição (fortuna). Elevada que seja, aparece-te ela como coisa secundária. Ao passo que seria suficiente para tornar plenamente feliz aqueles a quem ela subjuga.
Peço-te, agora, prestar atenção ao que te vou expor.
Ambiente e participantes do colóquio
Era a 13 de novembro, dia de meu natalício.
Após frugal refeição, para o espírito não ficar em nada molestado, convoquei a todos com quem convivia — não somente naquele dia, mas de modo habitual. Reuni-os na sala de banhos, lugar tranquilo e adequado quanto à temperatura do momento.
Estavam ali — e não hesito em apresentá-los pelo nome, à tua particular benevolência — primeiramente, nossa mãe, a cujos méritos, estou persuadido, devo tudo o que vivo. Navígio, meu irmão. Trigésio e Licênio, meus concidadãos e discípulos. Não quis que ficassem ausentes meus primos Lastidiano e Rústico, ainda que não houvessem frequentado a escola de nenhum Grammaticus.
Para o que planejávamos, julguei o seu bom senso poder nos prestar auxílio. Enfim, também se encontrava presente o menor de todos pela idade, mas cuja inteligência — se o amor não me leva a engano — promete grandes coisas: Adeodato, meu filho.
Estando todos atentos, assim comecei:
Colóquio do Primeiro Dia — Capítulo 2 — O Problema da Felicidade — Constamos de corpo e alma
— Será evidente a cada um de vós, que somos compostos de alma e corpo?
Todos foram concordes, exceto Navígio, que declarou não saber.
— Mas, disse-lhe eu, pensas que ignoras tudo em geral, ou essa proposição é uma entre outras coisas que desconheces?
— Não creio que sou totalmente ignorante, respondeu ele.
— Podes, pois, dizer-nos alguma coisa do que sa-bes?
— Sim, posso.
— Se isso não te incomoda, dize-nos, pois.
E como ele hesitasse, interroguei:
— Sabes, pelo menos, que vives?
— Isso eu sei.
— Sabes, portanto, que tens vida, visto que ninguém pode viver a não ser que tenha vida?
— Isso também sei.
— Sabes, igualmente, que possuis um corpo?
Ele concordou.
— Sabes, então, que constas de corpo e vida?
— Sim, todavia tenho dúvidas se não existe alguma coisa a mais do que isso.
— Assim, não duvidas destes dois pontos: possuis um corpo e uma alma. Mas estás em dúvida se não existe outra coisa que seria para o homem um complemento de perfeição.
— É isso, concordou ele.
— O que poderia ser, procuraremos em outra ocasião, sendo possível. Peço agora, já que todos estamos de acordo em reconhecer que não pode existir homem algum sem corpo e alma, dizerem-me para qual dos dois elementos desejamos o alimento?
— Para o corpo, exclamou Licêncio.
Os demais, porém, duvidavam, perguntando-se de diversas maneiras como poderia o alimento ser necessário ao corpo, quando o procurávamos para viver, e a vida não depende senão da alma.
Intervim, dizendo:
— Parece-vos que o alimento é feito unicamente para a parte do homem que vemos crescer e fortificar-se por meio dele?
Foram todos dessa mesma opinião, exceto Trigésio que declarou:
— Por que, então, não chego a crescer em proporção ao meu grande apetite?
— A natureza, expliquei, fixou aos corpos a dimensão à qual pode atingir, mas sequer atingiriam essa dimensão se lhes faltasse o alimento. Constatamos facilmente esse fato nos animais. Todos sabem que os corpos vivos, sejam quais forem, definham sem o alimento.
— Definham, mas não encurtam, retorquiu Li-cêncio.
— Já temos o bastante para o meu propósito, concluí. Pois a questão era saber se o alimento é para o corpo. Ora, não há dúvidas sobre isso, porque se for suprimido o corpo definha.
Todos aprovaram.
O alimento da alma
— E quanto à alma, perguntei, não possui ela seu alimento próprio? Não lhes parece ser esse alimento a ciência?
— Certamente, disse minha mãe. A meu ver, não existe outro alimento para a alma que não seja o conhecimento das coisas e a ciência.
Tendo Trigésio se mostrado indeciso a esse respeito, ela argumentou:
— Pois ainda hoje, tu mesmo nos mostraste como e de onde a alma tira o seu alimento. Posto que, pouco após o início da refeição, disseste que não tinhas notado de qual prato nós nos tínhamos servido.
Isso porque, certamente, pensavas em não sei quê. Entretanto, não te privaste de tomar com as mãos e a boca sem prestar nenhuma atenção? Assim, acredita-me, é de tais alimentos, isto é, das próprias ideias e pensamentos que a alma se alimenta. Tomara que ela chegue a aprender algo por esse meio.
A essa explicação levantou-se um alvoroço e surgiram dúvidas. Disse eu:
— Vejamos, não concordais então que, em certo sentido, os homens sábios possuem o espírito mais pleno e mais livre do que os ignorantes?
— Isso é evidente, reponderam eles.
— Temos, portanto, razão de dizer que os espíritos desprovidos de cultura e instrução estão como que em jejum e famintos?
— A meu entender, retrucou Trigésio, penso que estão, antes, cheios de vícios e maldades.
Assim é, concordei, e podes crer que isso representa para os espíritos certa esterilidade e fome.
Pois, do mesmo modo como o corpo, privado de alimento, fica exposto a doenças e reações malignas decorrentes de sua inanição, assim o espírito ignorante está impregnado de doenças provenientes de suas carências. Os antigos justamente queriam que fosse chamada malignidade essa decomposição que é mãe de todos os vícios, pois vem a ser o nada e o vazio. E a virtude contrária a tal vício denomina-se moderação, temperança ou frugalidade. Esse termo vem de fruges e tem o significado de frutos. Evoca assim uma espécie de fecundidade provinda ao espírito graças a essa virtude. Por outro lado, nequitia vem da palavra nihil (nada), que lembra a improdutividade. Com efeito, pode-se chamar nada aquilo que se escoa, decompõe, dissolve e não cessa de certo modo de se deteriorar e perder. Por isso, os homens sujeitos ao vício da malignidade (nequitia) são chamados “perdidos”. Ao contrário, quando existe algo que perdura, se mantém, não se altera e sempre fica semelhante a si mesmo, aí está a virtude. E o elemento mais importante e particularmente belo da virtude é a chamada temperança ou frugalidade. Todavia, se tudo isso vos parece por demais obscuro para que possais compreender por enquanto, concordareis com o seguinte: se os ignorantes possuem alma a ser nutrida, do mesmo modo como acontece com o corpo, temos de distinguir duas espécies de alimento: um salutar e proveitoso, outro malsão e funesto.
O festim do aniversário
— Nessas condições, já que estamos de acordo que o homem consta de dois elementos, a saber, corpo e alma, parece-me que para o dia do aniversário de meu nascimento devo oferecer não somente para os corpos, mas também para as almas, uma refeição um tanto mais abundante. Qual será esse festim, explicá-lo-ei, só se sentirdes apetite para ele. Pois seria inútil e perda de tempo querer vos nutrir, se houvesse resistência e má vontade. Façamos, portanto, votos para que sintais o apetite do espírito para esse alimento, e seja ele superior ao apetite do corpo. É o que acontecerá se a vossa alma estiver sadia, visto que os enfermos, como justamente vimos a respeito dos que sofrem de doenças físicas, recusam alimentar-se.
Todos se manifestaram alegres, dando o consentimento, pela voz e gestos. Declararam-se prontos a tomar e devorar tudo o que eu lhes tivesse preparado.
Questão: somos felizes por possuirmos o que queremos?
Retomando, prossegui:
— Queremos todos ser felizes?
Apenas havia pronunciado tais palavras que a uma só voz e espontaneamente aprovaram.
— E que vos parece: quem não tem o que quer é feliz?
— Não, responderam em uníssono.
— Como? Mas então, quem tem o que quer será feliz?
Minha mãe, nesse ínterim, tomou a palavra:
— Sim, se for o bem que ele apetece e possui, será feliz. Mas, se forem coisas más, ainda que as possua, será desgraçado.
Sorrindo, e deixando transparecer a minha alegria, disse à minha mãe:
— Alcançaste, decididamente, o cume da Filosofia. Pois, sem dúvida alguma, para exprimir teu pensamento apenas te faltaram as palavras de Cícero. Eis como se expressou ele no “Hortênsio”, obra composta para o louvor e a defesa da Filosofia:
Há certos homens — certamente não filósofos, pois sempre prontos a discordar — que pretendem ser felizes todos aqueles que vivem a seu bel-prazer. Mas tal é falso, de todos os pontos de vista, porque não há desgraça pior do que querer o que não convém. És menos infeliz por não conseguires o que queres, do que por ambicionar obter algo inconveniente. De fato, a malícia da vontade ocasiona ao homem males maiores do que a fortuna pode lhe trazer de bens”.
A essas palavras, minha mãe proferiu tal exclamação que, olvidando de todo o seu sexo, parecianos ver alguma grande personagem assentada entre nós. Compreendia eu, no entanto, quanto me era dado, de que fonte divina ela hauria essa sabedoria. Licêncio pediu-me então:
— Deves dizer-nos agora o que é necessário para sermos felizes e quais as coisas que podemos desejar para chegar à felicidade.
— Convidar-me-ás, repliquei, se o quiseres, para uma ceia no teu aniversário. Tomarei então de boa vontade o que me apresentares. Nessa mesma disposição, convido-te, hoje, à minha mesa. Não peças, pois, manjares que talvez não tenham sido preparados.
Tendo Licêncio se desculpado por ter dado ocasião a essa pequena e discreta advertência, retomei:
— Portanto, está entendido, entre nós, que ninguém pode ser feliz sem possuir o que deseja e, por outro lado, não bas-ta aos que já possuem ter o ambicionado para serem felizes.
Todos concordaram.
Só quem possui a Deus é feliz
— Pois bem, prossegui, admitis ser infeliz o homem que não é feliz?
— Sem a menor dúvida.
— Logo, é infeliz quem não possui o que deseja?
Todos aprovaram.
— Então, o que o homem precisa conseguir para ser feliz? Eis talvez aí um bom suplemento ao nosso festim, pois precisamos não esquecer o grande apetite de Licêncio. Imagino eu que tal homem desejoso da felicidade deva obter tudo quanto pode querer, à sua vontade?
— Evidentemente, disseram eles.
— Isso significa ser necessário que se procure um bem permanente, livre das variações da sorte e das vicissitudes da vida. Ora, não podemos adquirir à nossa vontade, tampouco conservar para sempre, aquilo que é perecível e passageiro.
Todos se mostraram de acordo a esse respeito, exceto Trigésio que objetou:
— Há muitos homens afortunados que possuem em grande abundância tais bens frágeis e sujeitos ao acaso, e, no entanto, levam vida muito agradável. Nada lhes falta de tudo quanto desejam.
— Na tua opinião, disse-lhe eu, achas poder ser feliz o homem sujeito a receios?
— Não me parece ser possível, respondeu ele.
— E poderá viver sem receio, quem pode vir a perder o que ama?
— Impossível, confirmou ele.
— Ora, todos esses bens sujeitos à mudança podem vir a ser perdidos. Por conseguinte, aquele que os ama e possui não pode ser feliz de modo absoluto.
Não tendo Trigésio replicado, minha mãe tomou a palavra:
— Ainda que alguém tivesse a certeza de não perder tais bens frágeis, contudo, nunca viria a se contentar com o que já possui. Portanto, a pessoa seria infeliz pelo fato de querer sempre mais.
— Nesse caso, argumentei, aquele que possuísse bens em abundância, rodeado de benefícios sem conta, supondo que pusesse limite a seus desejos e que vivesse satisfeito com o que possuísse, no gozo honesto e agradável desses bens, a teu parecer seria ele feliz?
— Não seriam essas coisas que o tornariam feliz, mas a moderação de seu espírito.
— Muito bem! Não poderia haver melhor resposta à minha pergunta, nem outra poderia eu esperar deti. Por conseguinte, estamos convencidos de que, se alguém quiser ser feliz, deverá procurar um bem permanente, que não lhe possa ser retirado em algum revés de sorte.
— Já concordamos com isso, diz Trigésio.
— Então, qual a vossa opinião? É Deus eterno e imutável?
— Eis aí uma verdade tão certa que qualquer questão se torna supérflua, interveio Licêncio.
Em piedosa harmonia, todos os outros disseram-se de acordo. Concluí então:
— Logo, quem possui a Deus é feliz!
Quem possui a Deus?
Todos aceitaram essa conclusão, com alegria e entusiasmo. Disse então:
— Resta-nos apenas procurar uma coisa: quem entre os homens possui a Deus? Pois, sem dúvida, tal homem será feliz. Dizei, por favor, qual o vosso pensamento sobre esse ponto.
Licêncio opinou:
— Possui a Deus quem vive bem.
— Possui a Deus quem faz o que Deus quer que se faça, disse Trigésio.
Lastidiano aderiu a essa opinião. Adeodato, o mais jovem de todos, sugeriu então:
— Possui a Deus quem não tem em si o espírito imundo.
Quanto à minha mãe, aprovou todas as opiniões, principalmente a última. Navígio calava-se. Como lhe perguntei o que pensava, declarou que a reflexão de Adeodato fora a que mais lhe agradara. Não pensei dever me abster de perguntar ao próprio Rústico qual era sua ideia a respeito de tão grave questão, pois me pareceu ser mais por timidez do que por deliberação o seu silêncio. Pôs-se em conformidade com a opinião de Trigésio.
Apresentação de questão extra
Retomei então:
— Conheço agora o que cada um pensa sobre essa questão fundamental, acima da qual nada temos de procurar, nem coisa alguma a descobrir. Todavia, aprofundemos a investigação com espírito sincero e sereno, aliás, como já iniciamos a fazê-lo. Seria entretanto longo demais para o dia de hoje.
Em tais festins, o espírito também deve temer uma espécie de intemperança, jogar-se imoderadamente e com gula sobre os manjares servidos. Desse modo o alimento seria mal digerido. Isso é tanto mais para se recear para a saúde do espírito, do que a inanição de que falamos. Não vos parece que vale mais tratarmos amanhã dessa questão, com apetite renovado? Contentai-vos, agora, em degustar somente o manjar espiritual que eu, como anfitrião, tive de súbito a ideia de vos oferecer. E salvo engano, será como o que costumam servir em último lugar, preparado e condimentado com o mel da Escola.
A essas palavras, todos estenderam a mão, como para alcançar o prato que eu lhes acenava a distância. Solicitaram que me apressasse a lhes revelar que tipo de manjar seria esse.
— Pois bem, que vos parece? Julgais que terminamos completamente a discussão iniciada a respeito dos acadêmicos?
A esse nome “acadêmicos”, os três que estavam a par da questão levantaram-se com vivacidade e estenderam as mãos, como é de costume ser feito ao se ajudar o servente que apresenta os pratos à mesa. E mostraram por palavras, do melhor modo que podiam, não terem ouvido notícia mais agradável.
Podem os acadêmicos ser felizes?
Propus-lhes a questão nestes termos:
— Se é evidente, como a razão nos demonstrou há pouco, não poder ser feliz quem não possui o que deseja; e de outro lado ninguém procurar o que não deseja encontrar; como então se explica que os acadêmicos estejam sempre à procura da verdade? Porque eles a querem encontrar, mas por método infalível, a fim de a poder descobrir. E contudo não a descobrem! Segue-se, portanto, que não são felizes. Ora, ninguém é sábio, se não for feliz. Logo, o acadêmico não é sábio!
A essas palavras todos exultaram de alegria, como se tivessem recebido um prato cheio. Licêncio, contudo, considerando a questão com mais atenção e prudência, temeu dar sua aprovação e declarou:
— Eu também me servi convosco dessa iguaria, pois igualmente me alegrei com o impacto da conclusão apresentada. Contudo, não degustarei migalha alguma. Guardarei minha porção para dá-la a Alípio. Ou bem ele a provará comigo, ou me explicará por que não convém tocá-la.
Tais guloseimas, disse eu, quem deveria temê-las é Navígio, devido a seu fígado doente.
Navígio a sorrir replicou:
— Muito pelo contrário, essas guloseimas me trarão a cura, sem dúvida alguma. Não sei como, mas o prato complicado e picante que nos preparaste — como foi dito por alguém — se com o mel de Himeto, possui sabor agridoce, e não me causará inchaço no estômago. Assim, se bem que me pique um pouco ao paladar, não deixarei de o consumir todo e com muito gosto. De fato, não vejo como se possa rejeitar tal conclusão.
— É absolutamente impossível rejeitá-la, afirmou Trigésio. Por isso, felicito-me de me sentir em desavença com os acadêmicos, há já bastante tempo. Não sabia como refutá-los, mas graças a não sei que instinto natural, ou mais exatamente, por qual impulso divino, eu já lhes era radicalmente hostil.
Licêncio procura apoiar-se em Alípio
— Quanto a mim, replicou Licêncio, ainda não os abandono.
— Logo, estás em desacordo conosco? pergunta-lhes Trigésio.
— Talvez, não sereis antes vós que estais em desacordo com Alípio?, insistiu Licêncio.
Tomei a palavra:
— Não duvido que, se Alípio estivesse aqui presente, subscreveria esse meu breve raciocínio. Não poderia ele, com efeito, admitir nenhum destes absurdos: considerar como feliz quem, desejando a verdade, com todo ardor, carece entretanto desse grande bem da alma; ou afirmar que os acadêmicos não querem encontrar a verdade; ou ainda, que quem não é feliz possa ser sábio. Pois é com esses três ingredientes, representados pelo mel, farinha e amêndoas, que é feito o manjar que temes degustar.
Insiste Licêncio:
— Crês que Alípio seja homem para ceder de pronto a essa simples guloseima de criança, renunciando à abundância do sistema acadêmico? Esse é tão grande que, ao transbordar, submergiria ou arrastaria o teu tão diminuto argumento.
Repliquei:
— Como se fosse preciso procurar longo raciocínio, sobretudo em relação a Alípio! Ele por si mesmo se convenceria, perfeitamente, de que meus argumentos são fortes e eficazes. Entretanto tu, que decidiste depender da autoridade de pessoa ausente, qual de minhas proposições não aprovas? — Negas não poder ser feliz quem não possui o que deseja? Ou pretendes que os acadêmicos não querem descobrir e possuir a verdade tão ardentemente procurada? Ou, acaso, estimas que o sábio possa ser infeliz?
Licêncio, com um sorriso contrafeito, afirmou:
— Declaro que quem não possui o que deseja pode ser plenamente feliz!
Como eu mandasse que essa resposta fosse anotada pelo estenógrafo, ele retratou-se:
— Não disse isso!
E como eu fizesse sinal para que também essa réplica fosse anotada:
— Sim, eu o disse, corrigiu-se.
Eu havia dado ordem, uma vez por todas, de não deixarem passar nenhuma palavra emitida sem que fosse registrada. Era assim que mantinha sob controle aquele jovem bastante versátil entre a reserva e a obstinação.
Opinião de Mônica sobre os acadêmicos
Ora, enquanto, como que brincando, levávamos Licêncio a retomar sua posição no festim, percebi que os demais convivas, ignorando tudo a respeito do que discutíamos, observavam-nos com ar contrafeito. Desejavam saber sobre o que nos entretínhamos tão jovialmente. Fizeram-me desse modo lembrar-me de algo que ocorre com frequência nos banquetes, a saber, aquelas pessoas colocadas entre convivas extremamente ávidos e gulosos, abstendo-se de se servir, quer por discrição, quer por timidez. Ora, como era eu que tinha feito os convites e havia aprendido contigo (ó Teodoro!) a assumir o papel de mestre de sala (invitator), e numa refeição desse gênero representar assim o papel de homem digno desse nome, fiquei impressionado de que houvesse entre os nossos convivas tal desigualdade e discrepância. Sorri para minha mãe. Ela, então, com uma liberdade não possuída pelos outros, deu como que uma ordem para que fosse tirado da dispensa o que faltava na ocasião:
— Dize, pois, e explica-nos quem são esses acadêmicos e o que pretendem eles.
Expliquei, breve e claramente, a fim de que ninguém ficasse sem os conhecer. E ela concluiu então:
— Tais homens são uns epiléticos (caducarii)!
Servira-se de palavra vulgar, com a qual são designadas as pessoas vítimas desse mal. Ao mesmo tempo, levantou-se para se retirar. Quanto a nós, satisfeitos e joviais, também nos retiramos, pondo fim à nossa discussão.
Colóquio do Segundo Dia — Capítulo 3 — A Posse de Deus Como Condição da Felicidade — Preâmbulo
No dia seguinte, após a leve refeição do meio-dia, mas algum tanto mais tarde do que na véspera, reencontramo-nos todos no mesmo recinto. Disse-lhes:
— Chegastes mais tarde ao festim. Espero que não seja em consequência do excesso de iguarias que tivemos ontem, mas, ao contrário, pela certeza que tínheis de que as de hoje seriam reduzidas.
Pareceu-vos, quem sabe, que não valia a pena começar tão de pronto um festim cujo término viria em breve. Era para se pensar, com efeito, que as sobras do modesto banquete de comemoração do meu aniversário haveriam de ser pouco abundantes. Talvez tendes razão. Desconheço, entretanto, o que vos está preparado para hoje, tanto quanto vós. Pois existe Outro que não cessa de oferecer-se a todos os melhores manjares, sobretudo os deste gênero de que vamos nos servir neste momento. Acontece na maioria das vezes que somos nós a nos abster de tomá-los, seja por fraqueza, seja por fastio, seja por excesso de ocupações. Todos estávamos concordes a essa respeito, ontem, piedosa e firmemente, — a não ser que eu esteja enganado. Com efeito, demonstramos pela razão: ser feliz quem possui a Deus.
Ninguém contradisse tal conclusão. Em seguida, foi proposta esta questão: — Quem vos parece que possui a Deus? Sobre esse ponto, se bem me lembro, três opiniões foram emitidas. Uns estimaram que possui a Deus quem faz o que Deus quer. Outros opinaram que o possui quem vive bem. Os demais afirmaram Deus estar presente naqueles em quem não reside o espírito denominado impuro. (Cf.
Ii,12.)
Concordância das três opiniões sobre quem possui a Deus
— Mas, talvez, com palavras diferentes, exprimistes, no fundo, uma só e mesma ideia. Pois, se considerarmos os dois primeiros pareceres, vemos que quem vive bem faz a vontade de Deus; e quem faz o que Deus quer vive bem. Não constituem coisas diferentes: viver bem e fazer o que agrada a Deus. A menos que considereis de outro modo?
Todos aprovaram a minha afirmação.
— Quanto à terceira opinião é preciso examiná-la com um pouco mais de atenção. Pois nos ritos muito santos de nossos mistérios, “espírito impuro”, ao que entendo, costuma ser tomado em dois sentidos: trata-se, primeiramente, daquele espírito que, de fora, invade a alma, perturbando os sentidos, a ponto de provocar na pessoa uma espécie de loucura. Para expulsar tais espíritos, os ministros impõem as mãos — o que é exorcismo, e que vem a ser uma ordem para fazê-los partir em nome de Deus. Pelo segundo sentido, “espírito impuro” aplica-se a toda alma impura, isto é, manchada por vícios e erros. Pergunto-te pois a ti, ó meu filho, de quem partiu essa opinião com tanta candura e pureza, que nos digas a teu entender: — Quem não possui esse espírito impuro? Será aquele que está livre do demônio, cuja possessão ocasiona habitualmente perturbações? Ou aquele que já está com a alma purificada de todos os vícios e pecados?
— A meu entender, disse ele, está isento do espírito impuro aquele que vive castamente.
Repliquei eu:
— Mas a quem chamas de casto? Aquele que não comete nenhum pecado ou quem se limita a abster-se de relações carnais ilícitas?
— Como poderia ser casto quem, limitando-se a evitar tais pecados, continuasse a manchar sua alma com os outros pecados? Ao contrário, será realmente casto quem tiver os olhos voltados para Deus e não se prender a nada além dele só.
Aprouve-me de que tais palavras pronunciadas por aquele menino fossem anotadas tais quais.
Prossegui depois:
— Desse modo, será necessário, para quem é casto, viver bem; e quem vive bem necessariamente será casto. A não ser que vejas de outro modo?
Ele concordou, assim como os demais. Então concluí:
— Logo, as três opiniões emitidas coincidem em uma só!
É feliz aquele a quem Deus está presente como amigo
— Proponho-vos agora uma pequena questão: Quer Deus que o homem o procure?
Todos deram o seu assentimento.
— Pergunto-vos ainda: Podemos dizer que quem busca a Deus leva vida má?
— De modo algum, responderam eles.
— Então, atendei ainda a esta terceira questão: Pode o espírito impuro procurar a Deus?
Disseram que não, exceto Navígio, que após um instante de hesitação aderiu à opinião do grupo.
Retorqui então:
— Se, pois, possui a Deus aquele que busca a Deus, faz a vontade de Deus, vive bem e está livre do espírito impuro; e entretanto, por outro lado, quem está à procura de Deus ainda não o possui; seguese que quem vive bem faz o que Deus quer e não possui o espírito impuro, só por aí, não pode ser considerado como alguém que possua a Deus!
Aqui, todos se puseram a rir, por terem caído no laço armado pelas consequências de suas concessões. Minha mãe, que tinha ficado distraída por um bom momento, pediu-me que lhe explicasse, de modo menos conciso e mais claro, o que a pressa das conclusões me tinham obrigado a apresentar sob forma pouco compreensível. Quando isso foi feito, disse ela:
— Mas ninguém pode chegar a Deus sem o ter procurado antes!
— Muito bem, aprovei. Contudo, aquele que ainda está à procura de Deus não chegou até Deus, também se vive bem. Portanto, nem todo o que vive bem possui, por isso, a Deus.
— Quanto a mim, replicou ela, parece-me que não há ninguém que não possua a Deus. Entretanto, aquele que vive bem possui a Deus como um amigo benévolo, e quem vive mal, como alguém que lhe é distante.
— Nesse caso, fizemos mal ontem em concordar que é feliz todo aquele que possui a Deus. Isso, caso for verdade que todos o possuam. Pois, na verdade, vemos que nem todos são felizes.
Insistiu ela:
— Acrescenta então o termo “benévolo”. (Isto é: será feliz quem possui a Deus como amigo.)
Pode ser considerado felizquem ainda está à procura de Deus?
— Pelo menos, estamos bem de acordo sobre este ponto: É feliz o que tem Deus propício?
— Quisera estar de acordo, replicou Navígio, mas receio especialmente que venhas depois a concluir que os (filósofos) acadêmicos sejam felizes. A eles, que foram qualificados ontem, com o emprego de termo vulgar e pouco latino, mas na minha opinião, bem justo: “caducarii”, isto é, epilépticos. Porque não posso crer que Deus seja molesto a quem o procura. E se não é justo afirmar tal coisa, segue-se que Deus será propício a todo aquele que o procura. Ora, quem possui Deus favorável necessariamente será feliz. Acontece, porém, que quem está em busca ainda não possui o que deseja. Decorrerá daí que a pessoa ainda não possuidora do ambicionado será feliz, coisa que ontem nos pareceu a todos absurdo, a tal ponto que julgávamos terem-se dissipado as trevas sobre a Academia. E com isso, Licêncio poderá triunfar sobre nós. Como médico precavido declarará ter sido eu punido por haver provado daquelas guloseimas nocivas à minha saúde. (Cf. II,14.)
A benevolência de Deus traz felicidade
Nessa ocasião, minha mãe sorriu de novo.
— Para mim, disse Trigésio, não posso concordar tão depressa que Deus seja molesto a quem não é benévolo. Creio dever haver aí um meio-termo.
— Contudo, retorqui eu, a essa pessoa que dizes encontrar-se em estado intermediário, a quem Deus não é nem benévolo nem molesto, concedes que possua Deus de qualquer modo que seja?
Como ele hesitasse a responder, minha mãe interveio:
— Uma coisa é possuir a Deus; outra, não estar sem ele.
— E o que vale mais, retomei eu, possuir a Deus ou não estar sem ele?
— Pelo que posso compreender, ponderou ela, eis a minha opinião: quem vive bem possui a Deus, e de modo propício. Quem vive mal possui a Deus, mas como distante (infestum). E quem quer que esteja à procura, sem todavia o ter encontrado ainda, não possui a Deus nem propício nem molesto.
Contudo, não está sem Deus.
— É essa a opinião do grupo?, indaguei.
Disseram todos que sim.
— Dizei-me, pois, eu vos peço: não será Deus benévolo a quem ele favorece?
— Sem dúvida, ele o é, confirmaram em coro.
— E Deus não favorece a pessoa que o procura?
— Sim, favorece, foi a resposta geral.
— Por conseguinte, quem busca a Deus o tem benévolo, e quem possui a Deus benévolo será feliz.
Logo, é feliz também aquele que está em busca de Deus. Como acontece que quem procura ainda não tem o que deseja, temos aí: quem ainda não possui o desejado é feliz!
— De modo algum, objetou minha mãe. Não me parece que seja feliz quem não possui o que deseja.
— Logo, repliquei, nem todo o que tem a Deus favorável é feliz?
— Se a razão impõe tal conclusão, retorquiu ela, não o poderei negar.
— Por conseguinte, chegas a estas distinções: todo o que encontrou a Deus e o tem benévolo é feliz.
Todo o que ainda busca a Deus tem-no benévolo, mas ainda não é feliz. E, enfim, todo o que se afasta de Deus, por seus vícios e pecados, não somente não é feliz, mas sequer goza da benevolência de Deus.
Consiste a infelicidade na carência?
Esse meu raciocínio agradou a todos. Concluí então:
— Está bem. Receio, porém, que estejais embaraçados com o que concedemos anteriormente, a saber: todo aquele que não é feliz é infeliz (cf. II,11). Daí seguiria a necessidade de ser considerada infeliz a pessoa que possuindo a Deus de modo benévolo, pelo fato mesmo de estar em busca de Deus, não é feliz. Ou acaso como diz Túlio:
Chamamos ricos os proprietários de muitas terras, ao passo que consideramos pobres aqueles que possuem todas as virtudes”.
Refleti, por conseguinte, ainda nisto: se é verdade que seja infeliz quem se encontra na indigência, será igualmente verdade que todo infeliz seja indigente? Seguir-se-ia daí, portanto, que a infelicidade consiste tão-somente na carência ou indigência. Opinião essa que ao ouvi-la ser exposta pensastes que eu a aprovaria. Pelo que, peço-vos reunir-vos, sem fastio, amanhã, em volta desta mesma mesa. Todos declararam que o fariam com o máximo prazer, então levantamo-nos dali.
Colóquio do Terceiro Dia — Capítulo 4 — A Felicidade é Plenitude Espiritual
Passar necessidade e ser infeliz se identificam?
No terceiro dia de nossos colóquios, dissipou-se a nebulosidade matinal que nos obrigara a instalar-nos na sala de termas. Após o meio-dia, o céu tornou-se puríssimo. Decidimos com agrado descer até o campo próximo. Tendo cada um se instalado comodamente, prosseguimos o último tema do colóquio da véspera. Iniciei:
— Obtive e retenho as adesões apresentadas pelo grupo às minhas questões. Para hoje — a fim de podermos terminar este festim e descansar em seguida por alguns dias — nada ou quase nada tereis a me responder, conforme presumo. Foi dito por minha mãe que a infelicidade não é outra coisa senão carência. E todos nós concordamos que os indigentes é que são infelizes (cf. III,22). Contudo, não chegamos a esclarecer, ontem, a seguinte questão: são todos os infelizes necessitados de algo? Caso a razão chegue a nos demonstrar que assim é, teremos encontrado quem seja feliz: a pessoa que não padece de indigência alguma. Já que quem não é infeliz é feliz, será feliz quem não sofre necessidade.
Isso caso fique confirmada a identidade entre o que denominamos indigência e infelicidade.
Inconsequências lógicas
— Pois então, indagou Trigésio, não se pode deduzir ser feliz quem não está na indigência pelo fato de ser manifestamente infeliz o indigente? Ora, lembro-me de que já concordamos sobre isso (III,22), e de que não existe meio-termo entre a miséria e a felicidade.
— E a teu entender, repliquei, existe meio-termo entre um ser morto e um ser vivo? Não é toda pessoa um ser vivo ou um ser morto?
— Confesso também não existir aí meio-termo. Mas aonde queres chegar com essa questão?
— Eis: penso que admites estar bem morto aquele que foi enterrado há um ano?
Trigésio não contradisse.
— Nesse caso todo homem que não estiver enterrado há um ano, estará ainda vivo?
— Essa consequência não se segue, retorquiu ele.
— Também do fato de que “todo indigente é infeliz” não se segue que “quem não estiver na indigência será feliz”, visto que entre o feliz e o infeliz como entre o vivo e morto não cabe estado intermédio.
Conceitos estoicos sobre a sabedoria da vida
Como alguns do grupo se mostravam um tanto lentos a compreender tal raciocínio, expliquei-lhes como pude e de diferentes modos, com palavras adequadas, conforme a capacidade de cada um.
— Ninguém duvida agora de que quem se encontra na indigência seja feliz? E não precisamos indagar se o sábio sofre de necessidades corporais, pois essas coisas não se fazem sentir na alma — sede da vida feliz. A alma do sábio é perfeita: ora, ao que é perfeito nada falta. Ele se servirá de tudo o que for necessário a seu corpo, e estiver a seu alcance. E, caso contrário, a falta desses bens não conseguirá abatê-lo. Posto que a característica do sábio é ser forte, e o forte nada temer. Assim, o sábio não teme a morte corporal, nem os sofrimentos que não consegue expulsar, evitar ou retardar, com a ajuda daqueles bens, de cuja posse pode acontecer ver-se privado. Entretanto, não deixará de se servir honestamente desses bens, caso os possua. Desse modo, apresenta-se totalmente verdadeira a máxima:
É tolice suportar o que se puder evitar”.
Logo, o sábio evitará a morte e o sofrimento quando lhe for possível e conveniente. Deixando de o fazer, manifestar-se-ia como infeliz. Não por esses maléficos lhe serem funestos, mas porque, tendo tido a possibilidade de os evitar, não o fez. Isso é sinal evidente de tolice. Desse modo, por não os ter evitado, sua infelicidade viria não pelo fato de sofrer, mas sim por sua própria estultícia. E ainda, caso o sábio não consiga evitar os males, após ter-se empenhado ativamente no limite do conveniente, esses mesmos infortúnios inevitáveis, ao abaterem-se sobre ele, não o tornariam infeliz. Pois a seguinte máxima do mesmo poeta já citado não é menos verdadeira:
Já que as coisas não podem ser tal como queres, deseja apenas aquilo que for realizável”.
Como poderia ser infeliz aquele a quem nada acontece contra a sua vontade? Pois ele não chega a desejar o que vê ser irrealizável. Sua vontade dirige-se somente a coisas possíveis. Tudo o que ele faz será conforme as prescrições da virtude e da divina lei da sabedoria. Bens esses, que de modo algum lhe poderão ser arrebatados.
Basta o gozo dos bens temporais para ser feliz?
— Refleti agora no que segue: é infeliz todo o que sente necessidade de algo que lhe falta? O que torna difícil de ser aceita tal opinião é o fato de que muitas pessoas desfrutam grande abundância de bens perecíveis. Para elas, tudo é fácil porque ao simples aceno de suas mãos realizam-se todos os seus desejos. Mas, sem dúvida, esse tipo de vida está sujeito a grandes dificuldades. Imaginemos um homem, tal como aquele Orata, de quem nos fala Cícero. Quem ousaria dizer que Orata sofria de alguma indigência, ele que se achava cumulado de riquezas, do mais refinado luxo e de prazeres? Ele, a quem nada faltava do que contribui ao deleite, ao encanto da vida, ao gozo de perfeita saúde?
Possuía em abundância propriedades rendosas e amigos muito prestativos. Servia-se judiciosamente de tudo para seu bem-estar. Em breves palavras: feliz sucesso coroava todos os seus empreendimentos e planos. Contudo, poderia dizer alguém dentre vós: quem sabe, não tenha ele querido possuir mais do que já tinha? Não o sabemos. Suponhamos, porém, e isso basta a nosso propósito, que ele não tenha ambicionado nada mais do que possuía. Parece-vos que lhe faltava alguma coisa?
Licêncio aventurou:
— Ainda que eu concordasse que nada lhe tenha faltado do que desejava — e isso não sei bem como poderia admiti-lo em um homem que não fosse sábio — acontece, sem dúvida, que ele temia (pois, como dizem, era homem de não pouca inteligência), que por inesperado revés de fortuna viesse a perder todos esses bens. Com efeito, não lhe seria muito difícil compreender que todos aqueles benefícios — quão vultuosos fossem — estavam na dependência dos caprichos da sorte.
— Vês então, Licêncio, disse eu sorrindo, que esse ricaço estava justamente impedido por suas próprias qualidades naturais de chegar à vida feliz. Quanto mais inteligente fosse ele, mais perceberia que poderia perder todos os seus bens. Esse receio o perseguiria e verificar-se-ia o dito popular:
A um homem sem segurança,seu próprio mal o torna conformado”.
A maior carência: a falta de sabedoria
Essas palavras levaram Licêncio e os demais a rirem.
— Contudo, continuei, examinemos com mais atenção esse problema. Orata sentia-se sem segurança, mas não se achava na indigência. E é aqui que se encontra a questão. Com efeito, encontrar-se na indigência consiste em não ter o que se necessita; e não no receio de perder o que se possui. Ora, esse homem de quem falamos não se encontrava na indigência, mas era infeliz porque temia a perda de seus bens. Portanto, não será exato dizer que todo homem infeliz está na carência de alguma coisa. Minha mãe, cuja opinião eu defendera (cf. IV,23), deu assim como os outros o seu assentimento à minha conclusão. Acrescentou em seguida:
— Contudo não vejo, e ainda não compreendo bem, como se pode separar indigência da infelicidade. Porque esse Orata ainda que fosse rico e, como dizíeis, nada ambicionasse a mais, acontece que pelo fato mesmo de temer a perda de todos os seus bens, encontrava-se na indigência.
Faltava-lhe justamente a sabedoria. E, então, haveríamos de declarar ser alguém indigente por lhe faltar dinheiro e riquezas e não por lhe faltar a sabedoria?
A essas palavras, todos prorromperam em exclamações. Eu mesmo não me sentia pouco satisfeito, especialmente por ter sido minha mãe quem enunciara um dito tão importante como conclusão. Havia eu justamente preparado essa afirmação para o final, tirada dos mais notáveis escritos dos filósofos.
— Percebeis agora, concluí, qual a diferença existente entre conhecer múltiplas e diversas doutrinas e ter o espírito inteiramente voltado para Deus? Pois essas palavras que acabamos de admirar, de onde procedem elas a não ser daquela divina fonte?
Aqui, Licêncio exclamou com alegria:
— Certamente, não poderia ser dito nada de mais verdadeiro nem de mais divino. Posto que, de fato, a maior e mais deplorável indigência é a privação da sabedoria. Ao contrário, nada pode faltar a quem possui a sabedoria.
Toda carência equivale a uma infelicidade
— A indigência da alma (animi egestas) não é, portanto, outra coisa do que estultícia (stultitia). E essa é o oposto da sabedoria, como a morte o é da vida, e a felicidade da infelicidade. Entre esses diversos estados não há meio-termo. Com efeito, todo aquele que não é feliz é infeliz. E se todo o que não está morto é vivo, do mesmo modo, evidentemente, todo o que não é insensato (stultus) é sábio.
Isso nos permite agora concluir que aquele Sérgio Orata foi infeliz, não tanto porque temia a perda dos seus bens, mas por estar privado de sabedoria. E seria mais infeliz ainda se em meio àquelas coisas tão fugazes e perecíveis — por ele consideradas como bens — vivesse totalmente sem receio algum. Pois sua segurança, ele a teria, não graças a corajosa vigilância, mas devido ao embotamento de sua mente, mergulhada em profunda estupidez (stultutia). Se alguém, privado de sabedoria, padece de grande carência (egestatem), entretanto nada falta a quem possui a sabedoria. Segue-se que a estupidez é verdadeira carência. Ora, como todo insensato é infeliz, do mesmo modo todo infeliz é insensato.
Assim, pois, está demonstrado como toda carência equivale a infelicidade, e do mesmo modo toda infelicidade implica carência.
Todo infeliz é indigente
Como Trigésio declarasse não haver compreendido bem essa conclusão, perguntei-lhe:
— O que acaba a razão de nos demonstrar?
— Que está em carência quem não possui sabedoria.
— E no que consiste essa carência?
Como ele se calasse, retorqui:
— Não será talvez em viver como insensato? (habere stultutiam)?
— É isso.
— Por conseguinte, estar sujeito à carência nada mais é do que ser insensato. Segue-se que seria necessário denominar a carência com outro termo, quando se tratar da estupidez (stultitia). E, no entanto, dizemos, não sei por que: “Ele está na indigência” e: “Ele é insensato”. É como se disséssemos a respeito de um quarto escuro, que possui as trevas, equivalendo a: não possui a luz. Pois não são as trevas que vêm ou se retiram, mas, sim, a luz. Haver privação de luz é o mesmo que existirem trevas. Exatamente como: “estar sem roupa” é estar na nudez. Pois a nudez não foge como algo capaz de se mover à chegada das roupas! Assim, quando dizemos de alguém: “Está carente” é como se disséssemos: “Está nu”. A carência ou indigência (egestas) é palavra que significa “não possuir”. E para explicar melhor o meu pensamento, diz-se de alguém: “Ele é indigente”, no mesmo sentido do que: “Ele nada tem”. Assim, pois, já está demonstrado que a estultícia consiste, precisamente, em verdadeira e autêntica indigência (da alma). Verificai, agora, se a questão levantada está resolvida. Com efeito, perguntávamos se pela palavra “infelicidade” (miseriam) designávamos apenas a indigência (da alma). Ora, provamos que é com razão que se afirma ser a estultícia uma indigência. Portanto, equivalem-se. Logo, como todo insensato é infeliz (miser) e todo infeliz insensato, assim também todo indigente é infeliz e todo infeliz indigente. E pelo fato de todo insensato ser infeliz e todo infeliz néscio (stultus), segue-se que a indigência é infelicidade. Então por que não haveremos de concluir já que a infelicidade e a indigência se identificam, pois todo indigente é infeliz e todo infeliz, indigente?
Plenitude: o oposto da indigência
Todos se declararam de acordo. Retomei, então:
— Trata-se agora de examinar quem não está na carência, pois esse será ao mesmo tempo sábio e feliz. A estultícia significa indigência (egestas) e isso é o que seu nome indica. Esse termo designa uma espécie de esterilidade e pobreza (inopia). Notai com particular atenção, peço-vos, quão cuidadosamente os antigos formavam as palavras de seu vocabulário. Pelo menos — e isso é evidente — em especial algumas delas, as que designam coisas cujo conhecimento nos é de todo necessário. Já concordastes em que todo insensato é indigente, e todo indigente é insensato. Espero que também concordareis em que o insensato possui o espírito cheio de defeitos (spiritum esse vitiosum), e que todos esses vícios da alma se encontram incluídos na única palavra: estultícia. Ora, no primeiro dia de nossos colóquios (cf. II,10), dizíamos que o termo nequitiam (malignidade) é formado de necquidquam (o que nada é), com o significado de esterilidade. Ao passo que o seu oposto recebe o nome de frugalitatem (moderação) que vem de frux (fruto). Assim, pois, nesses dois termos contrários:
frugalitas et nequitia (a frugalidade e a intemperança) o que está em evidência são dois conceitos: ser e não ser. Ora, na vossa opinião, qual será o contrário de egestate (indigência), sobre o qual discutíamos?
Eles hesitaram alguns instantes para responder. Trigésio aventurou-se:
— Se respondesse que é a riqueza? Pois me parece que possui como oposto a pobreza.
— Tudo isso se relaciona entre si, respondi. Pois, geralmente, pobreza e indigência são tomadas como a mesma e única coisa. Contudo, é preciso encontrar outra palavra, se não quisermos que o contrário — mais nobre — fique com um só vocábulo. De um lado, haveria abundância de termos:
pobreza, carência e indigência; e do outro, uma única palavra: riqueza. Seria totalmente absurdo, com efeito, se existissem para a indigência vários vocábulos, e para designar o seu contrário, a própria carência!
— Plenitude!, exclama Licêncio. Esse termo, se pudermos empregá-lo, creio eu, seria bem o oposto à indigência!
Sentido da palavra: plenitude
— Talvez mais tarde haveremos de tratar mais diligentemente dessa questão de palavras. Isso é secundário na investigação da verdade. Ainda que Salústio, escritor que ponderava mui cuidadosamente suas palavras, tenha oposto “opulência” à “indigência”. Contudo, aceito o teu termo “plenitude”. Pois não nos deixemos perturbar aqui por medo dos gramáticos, e temer de sermos censurados por negligência na seleção das palavras, por aqueles mesmos que puseram seus próprios bens à nossa disposição. A essas palavras eles riram. Prossegui:
— Quero preservar-me de prezar pouco os pareceres que propondes, pois quando estais atentos a Deus, sois como oráculos seus. Vejamos, pois, o que significa essa palavra “plenitude”. Nenhuma outra, penso eu, está mais próxima da verdade. Assim, plenitude e indigência são termos opostos. E aqui, como para intemperança e moderação, duas coisas apresentam-se: os conceitos de “ser” e de “não ser” (cf. IV,30). Justamente, se a estultícia é indigência, a sabedoria será plenitude. E, com razão, muitos consideram a moderação como sendo a mãe de todas as virtudes. A esse respeito, Túlio é do mesmo parecer num discurso popular:
Pense cada um o que quiser; quanto a mim, estimo que a frugalidade, isto é, a moderação ou temperança, é a mais excelente das virtudes”.
Palavras muito doutas e oportunas. Túlio considerou aí a raiz de fruges (fruto), no termo frugalidade. Isto é, a fecundidade do “ser”. Como na linguagem vulgar, emprega-se ordinariamente frugalidade no sentido de parcimônia. Túlio esclareceu o que pensava, anexando duas outras palavras sinônimas: moderação e temperança (modestiam et temperantiam). São essas duas palavras que examinaremos atentamente a seguir.
A sabedoria: justa medida da alma
A palavra “modéstia” é oriunda de modus (medida), e temperança de temperies (proporção). Onde há medida e proporção não existe nem a mais nem a menos do necessário. Aí se encontra precisamente a plenitude. Termo esse que opusemos à indigência. E é preferível o emprego da palavra “medida” ao de “abundância”. Pois essa última traz certa ideia de afluxo e transbordamento, algo em profusão. Ora, onde há mais do que é conveniente, constata-se falta de moderação, pois o excesso ocasiona essa falta de medida. Por outro lado, a indigência não deixa de ter certa relação com a abundância. Ao passo que a medida ignora um e outro: tanto o demais como o de menos. Se analisarmos, contudo, a ideia de “opulência”, achamos que possui necessariamente a medida. Pois, com efeito, o termo “opulência” vem de ops (ajuda). O excesso, porém, como poderia ajudar-nos, quando muitas vezes ele vem nos embaraçar mais do que o faz a penúria? Portanto, o que há em excesso ou em insuficiência existe falta de medida e risco de indigência. Logo, a sabedoria é a medida da alma, pois ela é, evidentemente, o contrário da estultícia. Ora, a estultícia é indigência, e esta tem como contrário a plenitude. Logo, a sabedoria é plenitude, e a plenitude implica a medida. Portanto, a medida da alma encontra-se na sabedoria. Donde o famoso aforismo que obteve justificada glória, por ser de máxima utilidade para a vida:
Nada haja em demasia.
Para ser feliz é preciso possuir a sabedoria
— Dissemos hoje, no início de nosso colóquio (IV,23), que se julgássemos ser a infelicidade nada além de carência, concordaríamos em declarar que o homem feliz seria aquele a quem nada falta. Foi isso o que estabelecemos. Portanto, ser feliz não é outra coisa do que não padecer necessidades, e isso é também ser sábio. Agora, se me perguntardes o que vem a ser a sabedoria — conceito a cuja análise e aprofundamento a nossa razão tem-se consagrado até o presente quanto pode — dir-vos-ei que a sabedoria é simplesmente a moderação do espírito (modus animi). Isto é, aquilo pelo que a alma se conserva em equilíbrio, de modo a não se dispersar em excessos ou encolher-se abaixo de sua plenitude. Sem essa medida, a alma atira-se em excesso na direção dos prazeres, da ambição, do orgulho e de todas as outras paixões do mesmo gênero. Por elas, os intemperantes, e portanto infelizes, imaginam alcançar alegria e poder. Ora, eles encontram-se, na verdade, diminuídos pelas baixezas, pelo medo, tristeza, cupidez e outras paixões. Sejam quem forem, esses infelizes reconhecem eles próprios que tais coisas fazem a infelicidade do homem. Ao contrário, quando alguém, tendo encontrado a sabedoria, faz dela o objeto de sua contemplação — para me servir de uma expressão deste menino (Adeodato, cf. III,18) — e a ele se apega (ad ipsam se tenet), sem se deixar seduzir por coisas vãs, sem se voltar mais para as aparências enganosas, cujo peso arrasta e submerge em profunda objeção, tudo se desfaz, por estar ele abraçado a seu Deus (amplexus a Deo suo). Então, essa pessoa não teme mais a imoderação, nem carência alguma, e, por conseguinte, nenhuma infelicidade. Concluamos, pois, que toda pessoa para ser feliz deve possuir sua justa medida, isto é, possuir a sabedoria.
A verdadeira sabedoria é a Sabedoria de Deus
— Mas que sabedoria será digna desse nome, a não ser a Sabedoria de Deus? Justamente aprendemos pela autoridade divina, que o Filho de Deus é precisamente a Sabedoria de Deus (1Cor 1,24); e o Filho de Deus, evi-dentemente, é Deus. Por conseguinte, é feliz quem possui a Deus. Sobre isso, todos já concordamos, no início de nosso festim (cf. II,11). Mas, na vossa opinião, qual há de ser essa Sabedoria senão a Verdade? Com efeito, também está dito: “Eu sou a Verdade” (Jo 14,6). Ora, a
Verdade encerra em si uma Suma Medida: da qual procede e à qual se volta inteiramente. E essa Suma Medida assim é, por si mesma, não por alguma imposição extrínseca. E sendo perfeita e suma é também a verdadeira Medida. E tal como a Verdade é gerada (gignitur) pela Medida, assim também a Medida manifesta-se pela Verdade. Por conseguinte, nunca houve Verdade sem Medida, nem Medida sem Verdade. Quem é o Filho de Deus? Já o dissemos e está escrito: “A Verdade!” Quem é aquele que não possui progenitor, a não ser a Suma Medida? (o Pai). Logo, todo aquele que vier à Suma Medida pela Verdade será feliz. E isso é possuir a Deus na alma, gozar de Deus. Quanto às outras coisas criadas, Deus as possui, mas elas não possuem a Deus.
A verdadeira felicidade é a comunhão com a Trindade
— Certo impulso interior que nos convida a lembrar-nos de Deus, a buscá-lo, a sentir sede dele, sem nenhum fastio, jorra em nós dessa mesma fonte da Verdade. É luz que esse misterioso sol irradia em nossos olhos interiores. E é dele que procede tudo o que proferimos de verdadeiro, ainda que temamos volver para ele nossos olhos ainda doentios ou recém-abertos, e de o fixarmos face a face.
Esse sol revela-se a nós como sendo o próprio Deus, ser perfeito sem nenhuma imperfeição a diminuílo. Pois nele encontra-se toda perfeição, completa e íntegra, visto que ele é, ao mesmo tempo, o Deus todo-poderoso.
Entretanto, enquanto estivermos em sua busca, somos forçados a reconhecer que ainda não nos saciamos da água dessa fonte. E servindo-me daquele termo “plenitude” empregado por Licêncio (cf.
IV,30), ainda não possuímos a plenitude. Não presumamos, assim, haver alcançado a nossa medida.
Porque, também se certos da ajuda de Deus, ainda não atingimos a Sabedoria, nem, por conseguinte, a felicidade. Pois a perfeita plenitude das almas, a qual torna a vida feliz, consiste em conhecer piedosa e perfeitamente:
— por quem somos guiados até à Verdade (o Pai);
— de qual Verdade gozamos (o Filho);
— e por qual vínculo estamos unidos à Suma Medida (o Espírito Santo).
Nesses três elementos, aqueles que possuem o conhecimento e repelem as ilusões de várias superstições, reconhecem um só Deus e uma só Substância.
Nesse momento, minha mãe, lembrando-se das palavras que lhe estavam profundamente gravadas na memória, e como despertando em sua fé, deixou escapar alegremente este versículo de um hino de nosso bispo:
Protege, ó Trindade santa, aqueles que te imploram.
Acrescentou depois:
— Eis, sem nenhuma dúvida, a vida feliz, e essa é a vida perfeita. Tenhamos confiança que poderemos ser levados a ela, prontamente, graças à fé sólida, à alegre esperança e à ardente caridade.
Término do diálogo
— Assim pois, disse eu, já que a mesma moderação nos leva a suspender nosso festim pelo intervalo de alguns dias, dou graças com todas as minhas forças ao sumo e verdadeiro Deus, Pai e Senhor libertador das almas. E também a vós que, cordialmente convidados por mim, me cumulastes de dádivas. Pois fostes de tal ajuda em nossos colóquios que, não o posso negar, fui eu o saciado por meus convidados.
Todos a essas palavras testemunharam sua alegria e bendiziam a Deus. Trigésio exclamou:
— Como gostaria que tu nos obsequiasses todos os dias, nessa mesma medida.
— Essa medida deve ser guardada e amada em toda parte, se vos empenhardes deveras na nossa volta a Deus.
Dito isso, demos fim a nosso colóquio e separamo-nos.
