John Rylands Library, Manchester. Domínio público.
Foto: cortesia da John Rylands University Library, domínio público (abre em nova janela), via Wikimedia Commons.
Há palavras do Evangelho que atravessam os séculos e, sem perder nada de sua força, parecem lançar uma luz inesperada sobre o nosso próprio tempo.
Quando os fariseus pediram a Jesus que repreendesse os seus discípulos, escandalizados com as aclamações que lhe eram dirigidas, o Senhor respondeu que, ainda que os homens se calassem, as próprias pedras clamariam. A verdade não deixaria de ser anunciada. A criação inteira, de algum modo, daria testemunho daquele por quem e para quem todas as coisas foram feitas.
Hoje, em uma época em que tantas palavras são produzidas por máquinas, essa passagem nos convida a uma reflexão singular.
Os computadores que utilizamos são construídos a partir do silício, elemento extraído da terra, presente na areia e nas rochas. E é desse silício, organizado pela inteligência humana em circuitos e processadores, que surgem ferramentas capazes de auxiliar na tradução de textos, na preservação de documentos e na transmissão do conhecimento.
Seria ousado demais enxergar nisso uma pequena parábola dos nossos tempos? Se os homens, por negligência, falta de recursos ou ausência de oportunidades, deixam de fazer ouvir a voz dos antigos mestres cristãos, por que não colocar também essas novas ferramentas a serviço de sua memória? Se as pedras podem clamar, que também o silício, ordenado pela inteligência humana, ajude a fazer ressoar a voz daqueles que testemunharam a fé nos primeiros séculos da Igreja.
Não afirmamos que uma máquina tenha fé, que um programa possa crer ou que a inteligência artificial substitua o labor paciente dos estudiosos, a consciência dos tradutores ou a vida da Igreja. A fé é vivida por pessoas; a inteligência artificial é uma ferramenta. Mas uma ferramenta pode ser empregada para fins nobres. E poucas coisas nos parecem mais dignas do que empregar os recursos do nosso tempo para tornar acessível a riqueza da tradição cristã.
A memória dos antigos, ao alcance de todos
Yale University Art Gallery. Domínio público.
Yale University Art Gallery, Yale-French Excavations at Dura-Europos, domínio público (abre em nova janela).
Os primeiros cristãos nos legaram um tesouro de escritos: testemunhos de fé, cartas, homilias, tratados, comentários às Escrituras e relatos de homens e mulheres que procuraram seguir a Cristo em circunstâncias muito diferentes das nossas. Neles encontramos as alegrias e as lutas da Igreja nascente, a defesa da verdade, o testemunho dos mártires, a busca pela compreensão das Escrituras e a transmissão daquilo que os Apóstolos haviam recebido.
Esse patrimônio não pertence exclusivamente aos especialistas, aos acadêmicos ou àqueles que dominam as línguas antigas. Ele faz parte da herança cristã e merece ser conhecido por todos os que desejam aproximar-se dela.
Entretanto, a barreira do idioma permanece. Muitos textos continuam inacessíveis a quem não lê grego, latim ou outras línguas antigas e modernas. Há quem deseje conhecer os Padres da Igreja, mas não disponha dos recursos, da formação ou do tempo necessários para fazê-lo. Há estudantes, catequistas, sacerdotes, religiosos e leigos que poderiam encontrar nesses escritos alimento para a inteligência e para a vida espiritual, mas que esbarram em obstáculos materiais.
É nesse espaço que nasce o Didasteia.
Codex Amiatinus, c. 700. Biblioteca Medicea Laurenziana, Florença. Domínio público.
Mestre do Codex Amiatinus; reprodução de The Yorck Project (2002), domínio público (abre em nova janela), via Wikimedia Commons. A imagem ampliada mostra a página inteira.
Este projeto procura contribuir para que os textos da Igreja Primitiva sejam conhecidos em língua portuguesa, valendo-se também dos recursos da inteligência artificial para auxiliar no trabalho de tradução e difusão. Não por acreditarmos que a tecnologia seja capaz de resolver todas as dificuldades, nem por ignorarmos suas limitações, mas porque reconhecemos que ela pode ser colocada a serviço de uma finalidade verdadeiramente humana: tornar acessível um patrimônio que merece ser compartilhado.
As traduções assistidas por inteligência artificial exigem cuidado, revisão e consciência de seus limites. Uma ferramenta pode cometer erros, obscurecer nuances e deixar escapar o sentido de uma expressão. Por isso, o trabalho deve ser conduzido com responsabilidade, transparência e disposição para corrigir o que for necessário. A tecnologia não dispensa o discernimento; torna-o ainda mais necessário.
O objetivo não é produzir palavras em abundância, mas abrir caminhos para que os leitores se aproximem, com seriedade, das palavras dos antigos cristãos.
Como funciona, na prática
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O ponto de partida
Traduzimos a partir das traduções inglesas clássicas dos Padres, publicadas no século XIX e hoje em domínio público, sobretudo as coleções Ante-Nicene Fathers e Nicene and Post-Nicene Fathers. Não traduzimos diretamente do grego, do latim ou do siríaco: para o estudo rigoroso de uma passagem, o texto original e as edições críticas continuam sendo a referência. Algumas obras publicadas antes deste método ainda usam traduções de terceiros, indicadas na página de cada obra, e serão substituídas.
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A tradução
Um modelo de inteligência artificial especializado em tradução traduz cada obra em trechos de algumas centenas de palavras, sempre com o fim do trecho anterior à vista, para manter o fio do texto e a forma de tratamento.
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O vocabulário apostólico
Um glossário teológico com mais de mil termos orienta a escolha das palavras segundo o uso consagrado na tradição cristã. A Deus e a Cristo, a oração se dirige sempre com “Vós”.
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A conferência
Cada trecho é conferido automaticamente: nada pode ser omitido nem acrescentado, e as referências bíblicas, os nomes próprios e as palavras em grego e latim precisam estar no lugar. O que não passa nessa conferência é traduzido de novo ou separado para revisão.
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A revisão
Concluída a tradução do acervo, uma segunda leitura vai comparar de novo cada trecho com o texto inglês e corrigir sentido, concordância e conjugação. Enquanto isso, as correções enviadas pelos leitores são sempre bem-vindas: no leitor, selecione o trecho e toque em “Apontar erro”, ou avise-nos por e-mail ou pelo Discord (abre em nova janela).
A tecnologia a serviço do homem — e o homem a serviço de Deus
Roma, século III. Domínio público.
Domínio público (abre em nova janela), via Wikimedia Commons.
Não é a máquina que deve determinar o fim do homem. É o homem que deve orientar suas ferramentas para o bem. A tecnologia encontra sua dignidade não na capacidade de fazer tudo o que é possível, mas na disposição de servir àquilo que é verdadeiramente bom.
Quando empregada para manipular, explorar, escravizar ou afastar as pessoas da verdade, ela se torna instrumento de desordem. Quando colocada a serviço do conhecimento, da educação, da solidariedade e da difusão do que é bom, pode contribuir para o bem comum.
Mas, para nós, o bem comum não se esgota na prosperidade material, na eficiência ou na acumulação de informações. O homem não vive somente de pão, e a inteligência não encontra sua plenitude na mera produção de respostas. Fomos criados para a verdade, e a verdade encontra seu centro em Jesus Cristo, por quem todas as coisas foram feitas e em quem todas as coisas encontram sua unidade.
É por isso que este projeto não pretende fazer da inteligência artificial um ídolo, nem confundir o progresso técnico com o progresso espiritual. Queremos apenas utilizar, com prudência e gratidão, os instrumentos que temos à disposição para uma finalidade que os ultrapassa: servir à transmissão da fé cristã e à preservação de sua memória escrita.
A máquina não é o centro. O homem não é o centro absoluto. Cristo é o centro. E toda obra humana, inclusive a mais modesta, encontra sua orientação mais elevada quando se ordena à verdade, à caridade e à glória de Deus.
Recebemos de graça; queremos dar de graça
Joseph Wilpert, Die Malereien der Katakomben Roms (1903), domínio público (abre em nova janela), via Wikimedia Commons.
Há ainda uma convicção que desejamos manter diante dos olhos: “De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8).
A tradição cristã chegou até nós porque, ao longo dos séculos, fiéis piedosos copiaram manuscritos, preservaram bibliotecas, ensinaram, traduziram e transmitiram o que haviam recebido. Muitos o fizeram em circunstâncias difíceis, sem a promessa de reconhecimento, movidos pela convicção de que a verdade não deveria ser guardada como propriedade exclusiva de poucos.
Não podemos retribuir plenamente esse legado. Podemos, contudo, procurar transmiti-lo adiante.
Domínio público (abre em nova janela), via Wikimedia Commons.
Por isso, o Didasteia nasce com o desejo de oferecer acesso livre aos textos que disponibiliza, sem cobrar pela possibilidade de conhecer esse patrimônio, sem erguer barreiras desnecessárias e sem distinguir seus leitores pela condição econômica, pela formação acadêmica ou pelo lugar de onde vêm.
Queremos que o estudante e o professor, o sacerdote e o leigo, o pesquisador e o simples curioso possam encontrar aqui uma porta aberta. Que aquele que dispõe de uma biblioteca inteira e aquele que tem apenas um telefone celular possam igualmente começar a leitura. Que a língua portuguesa não seja um muro entre os leitores de hoje e as vozes cristãs dos primeiros séculos.
Dar de graça não significa desprezar o trabalho, ignorar os direitos dos autores e tradutores ou abandonar o rigor. Significa reconhecer que o conhecimento pode ser compartilhado como um serviço, e que o acesso à herança cristã não deve depender exclusivamente da capacidade de pagar por ela.
Que as pedras também clamem
Museu Nacional Romano, Termas de Diocleciano. Foto: Marie-Lan Nguyen, domínio público.
Foto de Marie-Lan Nguyen (2006), domínio público (abre em nova janela), via Wikimedia Commons.
Não pretendemos substituir os homens de carne e osso que estudam, traduzem, ensinam e anunciam o Evangelho. Ao contrário: desejamos que estas ferramentas lhes sejam auxiliares e que o resultado deste trabalho desperte novas vocações, novas pesquisas, novas traduções e um interesse renovado pela tradição da Igreja.
Se pudermos ajudar um leitor a descobrir um Padre da Igreja, um estudante a encontrar uma fonte para sua pesquisa, um cristão a compreender melhor a fé que professa ou alguém a dar os primeiros passos no conhecimento da história da Igreja, nosso esforço já terá encontrado uma razão de ser.
Talvez, então, a imagem das pedras que clamam possa acompanhar este pequeno empreendimento. Não como uma pretensão de conferir fé às máquinas, mas como um lembrete de que até os instrumentos mais improváveis podem ser colocados a serviço de uma verdade maior do que eles mesmos.
National Gallery, Londres. Domínio público.
Domínio público (abre em nova janela), via Wikimedia Commons.
Se faltam tradutores, que novas ferramentas auxiliem os que se dispõem a traduzir. Se faltam recursos, que a engenhosidade humana ajude a superar obstáculos. Se faltam leitores, que se abram caminhos até eles. E se, por algum tempo, as vozes humanas se tornarem insuficientes para fazer chegar a tantos lugares a memória dos antigos cristãos, que o silício de nossos computadores ajude a amplificar aquilo que jamais deveria ser esquecido.
Pois não queremos que a máquina fale em lugar de Cristo, mas que seja empregada para que mais homens e mulheres possam ouvir falar dele. Não queremos que a tecnologia substitua a tradição, mas que ajude a transmiti-la. Não queremos construir um monumento ao engenho humano, mas abrir uma porta para um tesouro que não nos pertence exclusivamente.
O Didasteia é um trabalho pequeno diante da grandeza dessa herança. Que seja, porém, um trabalho feito com humildade, cuidado e esperança. Que o conhecimento seja partilhado, que os textos sejam preservados e que as barreiras que nos separam dos antigos mestres sejam, pouco a pouco, vencidas.
E que tudo isso seja feito não por vaidade, lucro ou exaltação da técnica, mas por amor à verdade e em serviço ao bem comum, cujo horizonte último não é outro senão o próprio Cristo.
Se eles se calarem, as pedras clamarão.
E, se o silício puder ajudar a fazer chegar mais longe a voz dos antigos testemunhos da fé, que também ele seja posto a serviço dessa missão.
Didasteia — Textos da Igreja Primitiva em português.
