Pular para o conteúdo
Didasteia Textos da Igreja Primitiva em português

Busca dentro desta obra

Buscar em todo o acervo
Sumário

Encontrou um erro?

Selecione o trecho e toque em “Apontar erro”, ou avise sobre a obra inteira.

Didasteia · séc. I · Hipóteses

Narrativa da Paixão pré-marcana

Também conhecida como Relato pré-marcano da Paixão e Fonte pré-marcana da PaixãoEstudo do DidasteiaGratuito

A hipótese

A Narrativa da Paixão pré-marcana é um relato contínuo da prisão, condenação, morte e sepultura de Jesus que teria existido antes de Marcos, por volta de 40-60, e que Marcos teria incorporado nos capítulos 14-16. Como as outras fontes hipotéticas, não há manuscrito dela; diferentemente delas, a sua existência em alguma forma é aceita pela maioria dos comentadores de Marcos, embora não haja acordo sobre a extensão.

De onde vem a ideia. No resto de Marcos, os episódios são unidades curtas, ligadas por transições vagas (“naqueles dias”, “logo”). A Paixão, ao contrário, é uma sequência encadeada, com indicações de dia e de hora. Karl Ludwig Schmidt (1919) concluiu que ela foi, desde o início, uma narrativa contínua, e não um conjunto de episódios soltos.

No mesmo ano, Martin Dibelius explicou o porquê: a pregação precisava contar a cruz por inteiro, mostrando que tudo aconteceu “segundo as Escrituras”, para responder ao escândalo de um Messias crucificado. Rudolf Bultmann (1921) propôs um núcleo antigo e breve (prisão, condenação, crucifixão), ampliado depois.

O que está em jogo. Se a hipótese estiver certa, o relato da Paixão é a parte mais antiga da tradição narrativa sobre Jesus, formada poucos anos depois dos fatos, talvez na comunidade de Jerusalém. Se estiver errada, a Paixão de Marcos é obra do próprio evangelista, a partir de tradições soltas.

Os indícios

Cinco observações sustentam a hipótese.

1. A coesão de Marcos 14-16. A narrativa marca os dias (“dois dias antes da Páscoa”, 14,1; “no primeiro dia dos Ázimos”, 14,12) e as horas da crucifixão (a terceira, a sexta e a nona, 15,25.33-34). Nenhuma outra parte de Marcos tem essa continuidade.

2. A concordância com João. Fora da Paixão, João segue um roteiro próprio. Da prisão à sepultura, a ordem dos fatos é a mesma de Marcos, e há coincidências de vocabulário raro. Se João é independente de Marcos, como sustentaram P. Gardner-Smith (1938) e C. H. Dodd (1963), os dois remontam a uma tradição comum da Paixão.

3. As tradições citadas por Paulo. Por volta de 54-55, Paulo já “transmite” o que “recebeu”: a ceia “na noite em que foi entregue” (1Cor 11,23-25) e a sequência morte, sepultura, ressurreição e aparições (1Cor 15,3-5). As fórmulas pressupõem um relato conhecido, com a entrega, a morte e a sepultura na ordem dos Evangelhos.

4. Nomes e anonimatos. Marcos nomeia Simão de Cirene, “pai de Alexandre e de Rufo” (15,21), como se os filhos fossem conhecidos dos ouvintes. Ao contrário, cala o nome de quem feriu o servo do sumo sacerdote (14,47), que João identifica como Pedro (Jo 18,10), e do jovem que fugiu nu (14,51-52). Gerd Theissen (1989) leu esses silêncios como “anonimato protetor”: o relato foi contado em Jerusalém quando os envolvidos ainda corriam perigo.

5. Os Salmos. A narrativa é tecida com o Salmo 22 (numeração hebraica, como nas citações seguintes): a partilha das vestes (Mc 15,24; Sl 22,19), os que meneavam a cabeça (15,29; Sl 22,8) e o grito “Eloi, Eloi, lemá sabachtháni?” (15,34; Sl 22,2). O vinagre ecoa o Salmo 69,22 (Mc 15,36). Essa leitura da cruz à luz das Escrituras é anterior aos Evangelhos e lhes é comum.

A data. Rudolf Pesch (1977) observou que Marcos fala sempre “do sumo sacerdote”, sem nomeá-lo, enquanto Mateus e João o chamam Caifás. Para ele, o relato nasceu quando Caifás ainda estava no cargo, isto é, antes de 37 (K. R. MacGregor, 2018 (abre em nova janela)). Theissen chegou a uma data próxima: o nome “Tiago, o Menor” (15,40) só precisava desse apêndice enquanto vivia o outro Tiago, filho de Zebedeu, morto por volta de 44 (At 12,2).

Os textos

Traduções nossas do grego (Nestle-Aland, 28.ª ed.).

As tradições mais antigas: Paulo

São os textos mais antigos sobre a Paixão, escritos uns vinte anos depois dela e apresentados como tradição recebida. “Receber” e “transmitir” (paralambánein, paradídonai) são os termos técnicos da tradição.

Pois eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim”. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou também o cálice, dizendo: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim”. (1Cor 11,23-25)
Pois eu vos transmiti, em primeiro lugar, o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; e que apareceu a Cefas, depois aos Doze. (1Cor 15,3-5)

“Na noite em que foi entregue” (paredideto) já supõe o episódio da entrega; “foi sepultado” supõe o relato da sepultura, que os quatro Evangelhos ligam a José de Arimateia.

A sequência comum a Marcos e João

Da prisão à sepultura, os dois Evangelhos seguem a mesma ordem, embora João tenha matéria própria (o lava-pés, os discursos de despedida, o diálogo com Pilatos).

EpisódioMarcosJoão
Unção em Betânia14,3-912,1-8 (antes da entrada)
Anúncio da traição na ceia14,17-2113,21-30
Anúncio das negações de Pedro14,26-3113,36-38
Prisão no jardim, além do Cedron14,32-5218,1-12
Interrogatório diante do sumo sacerdote14,53-6518,13-24
Negações de Pedro, entrelaçadas com o interrogatório14,54.66-7218,15-18.25-27
Julgamento diante de Pilatos e Barrabás15,1-1518,28-19,16
Coroa de espinhos e manto de púrpura15,16-2019,2-3
Crucifixão no Gólgota, entre dois outros15,22-2719,17-18
Inscrição “Rei dos Judeus” e partilha das vestes15,24.2619,19-24
Vinagre e morte15,36-3719,29-30
Sepultura por José de Arimateia15,42-4719,38-42
Maria Madalena encontra o túmulo vazio16,1-820,1-2

Duas coincidências de vocabulário mostram a profundidade da tradição comum:

Na unção, os dois falam de “nardo puro”, nárdou pistikês (Mc 14,3; Jo 12,3), expressão que não ocorre em nenhum outro lugar do Novo Testamento, e do valor de “trezentos denários” (Mc 14,5; Jo 12,5).

Pedro “se aquecia” (thermainómenos) junto ao fogo no pátio do sumo sacerdote (Mc 14,54.67; Jo 18,18.25).

Três passagens de Marcos

E obrigaram a carregar a cruz dele um que passava, Simão de Cirene, que vinha do campo, pai de Alexandre e de Rufo. (Mc 15,21)
E um dos que estavam ali, tirando a espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha. [...] Um jovem o seguia, envolto apenas num lençol; agarraram-no, mas ele, largando o lençol, fugiu nu. (Mc 14,47.51-52)
À hora nona, Jesus gritou em alta voz: “Eloi, Eloi, lemá sabachtháni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34)

As reconstruções

A maioria dos comentadores de Marcos admite uma fonte anterior, oral ou escrita, que narrava ao menos a traição, a prisão, a condenação, a execução e a sepultura (MacGregor, 2018 (abre em nova janela)). Mas não há acordo sobre a extensão, a data nem o texto: Marion L. Soards comparou 35 comentadores num apêndice ao The Death of the Messiah de Raymond E. Brown (1994) e mostrou que quase não coincidem versículo por versículo.

Autor (ano)PosiçãoExtensão propostaData e lugar
K. L. Schmidt, M. Dibelius (1919), R. Bultmann (1921)Relato contínuo desde o início, ao contrário do resto da tradiçãoPara Bultmann, um núcleo breve (prisão, condenação, crucifixão), ampliado depoisPrimeira geração
J. Jeremias (1935; 3.ª ed. 1960)Etapas: o querigma (1Cor 15,3-5), um relato breve e um relato longoO relato breve começava com a prisãoPrimeira geração
V. Taylor (1952)Marcos uniu um relato básico a acréscimos de outra tradiçãoMc 14-15—
E. Linnemann (1970)Não houve relato contínuo; Marcos juntou tradições isoladas——
W. H. Kelber (org., 1976)A Paixão é composição do próprio Marcos, integrada à teologia do Evangelho——
R. Pesch (1977)Relato extenso, antigo e históricoDe Mc 8,27 (confissão de Pedro) a 16,8Jerusalém, antes de 37
J. D. Crossan (1988)O mais antigo relato seria um “Evangelho da Cruz” contido no Evangelho de Pedro, fonte dos canônicosExtraído do Evangelho de PedroMeados do século I
G. Theissen (1989)Relato da comunidade de Jerusalém, com “anonimato protetor”A Paixão de MarcosJerusalém, anos 40, antes de 44
A. Yarbro Collins (1992)Fonte escrita, para leitura na comemoração anual da morte de Jesus ou na CeiaMc 14,1-15,39, terminando com a morte e o véu rasgado (15,37-38)—
M. L. Soards, em R. E. Brown (1994)Fonte escrita provável, sem texto reconstituível com segurança——

Sobre Yarbro Collins, ver a introdução à coleção dos seus estudos (The Gospel According to Mark: Collected Essays, 2022 (abre em nova janela)).

Avaliação. O argumento de Pesch para a data é discutido: o anonimato do sumo sacerdote pode ser apenas estilo narrativo. A tese de Crossan foi rejeitada pela maioria; Brown argumentou que o Evangelho de Pedro depende dos Evangelhos canônicos, e não o contrário (New Testament Studies 33, 1987). O Evangelho de Pedro está no acervo do Didasteia.

O consenso mínimo é este: antes de Marcos já se contava a Paixão como uma história seguida, lida à luz dos Salmos e dos Profetas, e essa história chegou também a João por outro caminho. O texto exato dessa fonte não pode ser recuperado.

A hipótese e a fé da Igreja

A Igreja não se pronuncia sobre a fonte pré-marcana, mas a hipótese, no seu consenso mínimo, confirma o que a fé sempre afirmou: a Paixão foi contada desde o início, pela geração das testemunhas, como cumprimento das Escrituras.

Historicidade. A Dei Verbum afirma que os Evangelhos “transmitem fielmente” o que Jesus fez e ensinou e que os evangelistas escolheram entre as muitas coisas “transmitidas por palavra ou por escrito” (n. 19 (abre em nova janela)). Os traços que a crítica aponta na Paixão de Marcos (nomes conhecidos dos ouvintes, silêncios prudentes, a geografia de Jerusalém) são justamente sinais de uma tradição próxima das testemunhas oculares de que fala Lc 1,2.

“Segundo as Escrituras”. O querigma que Paulo recebeu já lê a morte de Cristo “segundo as Escrituras” (1Cor 15,3), e a narrativa é tecida com os Salmos e com Isaías. Para a fé, essa leitura não é um acréscimo lendário aos fatos, mas a sua interpretação pelo próprio Cristo ressuscitado (Lc 24,25-27.44-46).

A Paixão na liturgia. Yarbro Collins situa a fonte na comemoração da morte do Senhor e na Ceia; Paulo transmite a narrativa da instituição com a ordem “fazei isto em memória de mim” (1Cor 11,24-25). A proclamação da Paixão no Domingo de Ramos e na Sexta-feira Santa continua esse primeiro lugar da narrativa: a memória litúrgica da Igreja.

Os judeus e a Paixão. A leitura católica das narrativas da Paixão segue o Concílio: embora autoridades judaicas tenham insistido na morte de Cristo, “não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso tempo, o que na Sua paixão se perpetrou” (Nostra aetate, 4 (abre em nova janela)).

Método e fé. Bento XVI usou os resultados da exegese histórica sobre a Paixão em Jesus de Nazaré (vol. 2, 2011); sobre a data da Última Ceia, por exemplo, seguiu a cronologia de João, com John P. Meier. O que a fé não admite é tomar uma reconstrução hipotética como medida dos Evangelhos: o texto inspirado é o das quatro narrativas canônicas da Paixão, e não o de uma fonte conjectural.

Bibliografia

Fontes antigas e documentos da Igreja

Novum Testamentum Graece, Nestle-Aland, 28.ª ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.

Evangelho segundo Pedro, no acervo do Didasteia.

Concílio Vaticano II, Nostra aetate (abre em nova janela), 28 out. 1965, n. 4.

Concílio Vaticano II, Dei Verbum (abre em nova janela), 18 nov. 1965, n. 19.

Bento XVI (Joseph Ratzinger), Jesus de Nazaré: da entrada em Jerusalém até a Ressurreição, 2011.

Estudos (em ordem cronológica)

K. L. Schmidt, Der Rahmen der Geschichte Jesu: Literarkritische Untersuchungen zur ältesten Jesusüberlieferung. Berlin: Trowitzsch & Sohn, 1919.

M. Dibelius, Die Formgeschichte des Evangeliums. Tübingen: Mohr, 1919.

R. Bultmann, Die Geschichte der synoptischen Tradition. FRLANT 29. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1921.

J. Jeremias, Die Abendmahlsworte Jesu. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1935; 3.ª ed., 1960. Trad. ingl.: The Eucharistic Words of Jesus. London: SCM, 1966.

P. Gardner-Smith, Saint John and the Synoptic Gospels. Cambridge: Cambridge University Press, 1938.

V. Taylor, The Gospel According to St. Mark. London: Macmillan, 1952.

C. H. Dodd, Historical Tradition in the Fourth Gospel. Cambridge: Cambridge University Press, 1963.

E. Linnemann, Studien zur Passionsgeschichte. FRLANT 102. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1970.

W. H. Kelber (org.), The Passion in Mark: Studies on Mark 14-16. Philadelphia: Fortress, 1976.

R. Pesch, Das Markusevangelium. II. Teil: Kommentar zu Kap. 8,27-16,20. HThKNT II/2. Freiburg: Herder, 1977.

R. E. Brown, “The Gospel of Peter and Canonical Gospel Priority”, New Testament Studies 33 (1987) 321-343.

J. D. Crossan, The Cross That Spoke: The Origins of the Passion Narrative. San Francisco: Harper & Row, 1988.

G. Theissen, Lokalkolorit und Zeitgeschichte in den Evangelien. NTOA 8. Freiburg (Suíça): Universitätsverlag; Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1989. Trad. ingl.: The Gospels in Context: Social and Political History in the Synoptic Tradition. Minneapolis: Fortress, 1991.

A. Yarbro Collins, The Beginning of the Gospel: Probings of Mark in Context. Minneapolis: Fortress, 1992.

R. E. Brown, The Death of the Messiah: From Gethsemane to the Grave. 2 vols. New York: Doubleday, 1994. Com M. L. Soards, “The Question of a PreMarcan Passion Narrative”, apêndice IX, vol. 2, 1492-1524.

A. Yarbro Collins, Mark: A Commentary. Hermeneia. Minneapolis: Fortress, 2007.

K. R. MacGregor, “The Ending of the Pre-Markan Passion Narrative” (abre em nova janela), Scriptura 117 (2018) 1-11.

A. Yarbro Collins, The Gospel According to Mark: Collected Essays (abre em nova janela). WUNT 497. Tübingen: Mohr Siebeck, 2022.