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Didasteia · séc. I · Hipóteses

Evangelho dos Sinais

Também conhecido como Fonte dos Sinais e Semeia-QuelleEstudo do DidasteiaGratuito

A hipótese

O Evangelho dos Sinais é uma fonte escrita hipotética que o autor do Quarto Evangelho teria usado: uma coleção de milagres de Jesus, chamados “sinais” (sēmeia), com a finalidade de levar à fé em Jesus como Messias. Como Q, não há manuscrito nem testemunho antigo dela; é deduzida de irregularidades do próprio texto de João.

A ideia aparece em Alexander Faure (1922), que, estudando as fórmulas de citação do Antigo Testamento em João, sugeriu que o evangelista dispunha de um “livro de milagres”. Rudolf Bultmann, no comentário de 1941, deu-lhe forma: ao lado de uma fonte de discursos de revelação e de um relato da Paixão, o evangelista teria usado uma Semeia-Quelle, uma “fonte dos sinais”.

A forma mais conhecida da hipótese é a de Robert T. Fortna. Em The Gospel of Signs (1970) e The Fourth Gospel and Its Predecessor (1988), ele reconstruiu não só uma lista de milagres, mas um pequeno Evangelho narrativo: o testemunho de João Batista, os sinais e a Paixão e ressurreição. É a esse documento que se dá o nome de “Evangelho dos Sinais”.

Quem aceita a hipótese costuma datá-la antes de 70 e situá-la num ambiente judeu-cristão, em que a pergunta decisiva era se Jesus é o Messias esperado. Hoje, porém, ela é minoritária (ver “O debate”).

Os indícios

A hipótese se apoia em quatro observações sobre o texto de João. Traduções nossas do grego (Nestle-Aland, 28.ª ed.).

1. A numeração dos sinais. João conta os dois primeiros milagres:

Este princípio dos sinais fez Jesus em Caná da Galileia; manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele. (Jo 2,11)
Este foi, de novo, o segundo sinal que Jesus fez, quando veio da Judeia para a Galileia. (Jo 4,54)

Mas, entre os dois, o próprio Evangelho diz que, em Jerusalém, “muitos creram no seu nome, vendo os sinais que fazia” (2,23; cf. 3,2). O “segundo sinal” de 4,54 não é, portanto, o segundo do texto atual. A contagem faria sentido numa fonte em que Caná e a cura do filho do funcionário real vinham em sequência.

2. Uma conclusão sobre sinais. O Evangelho termina com uma frase que fala só de sinais, embora os capítulos anteriores sejam sobretudo discursos e Paixão:

Jesus fez, diante dos discípulos, muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, crendo, tenhais a vida em seu nome. (Jo 20,30-31)

Para Bultmann e Fortna, essa seria a conclusão da fonte, conservada pelo evangelista.

3. Rupturas do texto (“aporias”). Em 6,1, Jesus “foi para a outra margem do mar da Galileia”, embora o capítulo 5 se passe em Jerusalém. Em 14,31, ele diz “Levantai-vos, partamos daqui”, e o discurso continua por mais três capítulos. Depois da conclusão de 20,30-31 vem o capítulo 21, que diz: “Esta foi a terceira vez que Jesus se manifestou aos discípulos” (21,14). Fortna leu esse “terceira” como resto da numeração da fonte e colocou a pesca milagrosa como terceiro sinal.

4. Duas atitudes diante dos sinais. Algumas passagens tratam os sinais como caminho para a fé (2,11; 20,30-31). Outras desconfiam da fé que depende deles: “Se não virdes sinais e prodígios, não crereis” (4,48); “embora tivesse feito tantos sinais diante deles, não criam nele” (12,37); “felizes os que não viram e creram” (20,29). A hipótese atribui a primeira atitude à fonte e a segunda ao evangelista, que a teria corrigido.

O texto reconstruído

O núcleo da hipótese são os sete milagres narrados em Jo 2-11. Fortna acrescenta a pesca milagrosa do capítulo 21 e reordena os sinais por região: primeiro a Galileia, depois a Judeia.

SinalPassagemOrdem no EvangelhoOrdem na reconstrução de Fortna
Água transformada em vinho, em CanáJo 2,1-1111
Cura do filho do funcionário realJo 4,46-5422
Pesca milagrosaJo 21,1-14(epílogo)3
Multiplicação dos pãesJo 6,1-1544
Jesus caminha sobre as águasJo 6,16-2155
Ressurreição de LázaroJo 11,1-4476
Cura do cego de nascençaJo 9,1-767
Cura do paralítico de BetesdaJo 5,1-938

Na forma de 1988, o Evangelho dos Sinais teria ainda:

Início: o testemunho de João Batista e o chamado dos primeiros discípulos (partes de Jo 1,6-49).

Preparação da Paixão: a purificação do Templo (2,14-19), o conselho contra Jesus (11,47-53), a unção em Betânia e a entrada em Jerusalém (cap. 12).

Paixão e ressurreição: partes dos capítulos 18-20.

Conclusão: 20,30-31.

A atribuição versículo por versículo é de Fortna (1988) e varia de autor para autor; W. Nicol (1972) e U. C. von Wahlde (1989) chegam a extensões diferentes.

Um sinal por inteiro: o filho do funcionário real (Jo 4,46b-54)

Tradução nossa do grego.

Havia um funcionário do rei cujo filho estava doente em Cafarnaum. Ouvindo que Jesus tinha vindo da Judeia para a Galileia, foi até ele e pediu-lhe que descesse para curar o seu filho, que estava para morrer. Jesus lhe disse: “Se não virdes sinais e prodígios, não crereis”. O funcionário lhe disse: “Senhor, desce antes que o meu menino morra”. Jesus lhe disse: “Vai, o teu filho vive”. O homem creu na palavra que Jesus lhe disse e partiu. Enquanto ainda descia, os seus servos vieram ao seu encontro, dizendo que o menino vivia. Perguntou-lhes então a hora em que tinha melhorado, e eles lhe disseram: “Ontem, à hora sétima, a febre o deixou”. O pai reconheceu que fora naquela hora em que Jesus lhe dissera: “O teu filho vive”; e creu, ele e toda a sua casa. Este foi, de novo, o segundo sinal que Jesus fez, quando veio da Judeia para a Galileia.

O relato mostra os traços que a hipótese atribui à fonte: narração simples, milagre comprovado (a hora da cura) e fé como resultado. A frase do v. 48, que desconfia da fé nos sinais, interrompe o diálogo: sem ela, o pedido do v. 49 segue naturalmente o do v. 47. Por isso Fortna e outros a atribuem ao evangelista.

A história tem paralelo na cura do servo do centurião de Cafarnaum (Mt 8,5-13; Lc 7,1-10), atribuída a Q. A coincidência de lugar, de cura à distância e de hora sugere uma tradição comum anterior aos dois Evangelhos.

O debate

A fonte dos sinais teve seu auge entre os anos 1960 e 1980 e hoje é minoritária. Gilbert Van Belle fez o balanço crítico da hipótese em 1994 e o atualizou para 1994-2013 num volume de 2025, registrando o declínio do apoio, mesmo na América do Norte (Frey et al., The Semeia Narratives in the Gospel of John (abre em nova janela)).

A favor. W. Nicol (1972) defendeu a fonte com critérios mais controlados que os de Bultmann. Urban C. von Wahlde (1989; 2010) propôs três edições sucessivas do Evangelho, a primeira delas um relato de sinais. D. Moody Smith julgou a fonte de milagres “uma hipótese razoável”, desde que a tradição joanina seja independente dos sinóticos.

Contra. Quatro objeções pesam mais:

1. A unidade de estilo. Eduard Schweizer (1939) e Eugen Ruckstuhl (1951) catalogaram traços de estilo típicos de João. Eles aparecem, na mesma proporção, nas partes atribuídas à fonte e nas atribuídas ao evangelista. Ruckstuhl e Peter Dschulnigg ampliaram a demonstração em 1991. Se a fonte existiu, foi reescrita a ponto de não poder ser isolada pelo estilo.

2. A numeração tem outra leitura. Antes da cura do filho do funcionário, João diz que Jesus “foi, pois, de novo a Caná da Galileia, onde tinha transformado a água em vinho” (4,46). O “segundo sinal” de 4,54 pode ser simplesmente o segundo feito em Caná ou na Galileia, sem contradizer 2,23.

3. As rupturas têm outras explicações. Elas podem vir de edições sucessivas feitas pelo mesmo autor ou pela sua escola, sem uma fonte alheia. Raymond E. Brown (1966) rejeitou as três fontes de Bultmann e propôs cinco etapas de composição dentro da tradição joanina; o capítulo 21 é lido como epílogo acrescentado.

4. As duas atitudes são uma só teologia. Em João, o sinal revela a glória de Jesus, mas só é compreendido por quem vê além do prodígio: “Procurais-me não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães” (6,26). A tensão pertence ao pensamento do evangelista, e não precisa ser repartida entre dois autores.

A relação com os sinóticos. A hipótese supunha um João independente de Marcos, como haviam defendido P. Gardner-Smith (1938) e C. H. Dodd (1963). Hoje cresce a opinião de que João conhecia Marcos, ou ao menos tradições muito próximas dele (R. Bauckham, 1998). A sequência multiplicação dos pães e caminhada sobre as águas, comum a Mc 6,30-52 e Jo 6,1-21, se explicaria sem uma fonte particular.

A hipótese e a fé da Igreja

Uma fonte de sinais não contradiz o que a Igreja ensina sobre o Quarto Evangelho; o problema da hipótese é literário, não doutrinal. Ela só se torna incompatível com a fé quando é usada para tratar os sinais como lendas.

Origem apostólica. A Dei Verbum ensina que “a Igreja defendeu e defende sempre e em toda a parte a origem apostólica dos quatro Evangelhos”. O que os Apóstolos pregaram foi “transmitido por escrito por eles mesmos e por varões apostólicos” (Dei Verbum, 18 (abre em nova janela)). A fórmula admite a colaboração de discípulos na redação.

O próprio Evangelho o sugere. No fim, uma voz no plural fala do Discípulo Amado: “Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu, e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (Jo 21,24). A tradição liga o Evangelho a João, o discípulo do Senhor, em Éfeso (Ireneu, Contra as heresias III, 1, 1).

História e teologia. A Dei Verbum afirma a historicidade dos quatro Evangelhos, João incluído, e reconhece que os autores escolheram e explicaram o material “segundo o estado das igrejas” (n. 19). Clemente de Alexandria já chamava João de “Evangelho espiritual”, escrito por quem sabia que os fatos “corporais” já estavam nos outros Evangelhos (Eusébio, História eclesiástica VI, 14, 7). Os sinais são narrados como fatos e interpretados como revelação: as duas coisas não se excluem.

O magistério e a exegese. Em 29 de maio de 1907, a Pontifícia Comissão Bíblica afirmou a autoria e a historicidade do Quarto Evangelho contra a crítica liberal da época. A nota de 1955 deixou livres os estudiosos nas questões literárias desses decretos, e exegetas católicos como Raymond E. Brown passaram a estudar as etapas de composição do texto.

Bento XVI tratou da “questão joanina” em Jesus de Nazaré (vol. 1, 2007, cap. 8). Seguindo Martin Hengel e Peter Stuhlmacher, sustentou que o Evangelho remonta ao testemunho ocular do Discípulo Amado, transmitido e redigido no círculo dos seus discípulos. Uma coleção de sinais, se existiu, pertenceria a esse mesmo testemunho apostólico.

Bibliografia

Fontes antigas e documentos da Igreja

Novum Testamentum Graece, Nestle-Aland, 28.ª ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.

Ireneu de Lyon, Contra as heresias III, 1, 1.

Eusébio de Cesareia, História eclesiástica VI, 14, 7 (testemunho de Clemente de Alexandria).

Pontifícia Comissão Bíblica, decreto sobre o autor e a verdade histórica do Quarto Evangelho, 29 maio 1907.

Concílio Vaticano II, Dei Verbum (abre em nova janela), 18 nov. 1965, n. 18-19.

Bento XVI (Joseph Ratzinger), Jesus de Nazaré: do Batismo no Jordão à Transfiguração, 2007, cap. 8.

Estudos (em ordem cronológica)

A. Faure, “Die alttestamentlichen Zitate im 4. Evangelium und die Quellenscheidungshypothese”, Zeitschrift für die neutestamentliche Wissenschaft 21 (1922) 99-121.

P. Gardner-Smith, Saint John and the Synoptic Gospels. Cambridge: Cambridge University Press, 1938.

E. Schweizer, Ego eimi. FRLANT 56. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1939.

R. Bultmann, Das Evangelium des Johannes. KEK II. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1941. Trad. ingl.: The Gospel of John: A Commentary. Oxford: Blackwell, 1971.

E. Ruckstuhl, Die literarische Einheit des Johannesevangeliums. Freiburg (Suíça): Paulusverlag, 1951; 2.ª ed., NTOA 5, 1987.

C. H. Dodd, Historical Tradition in the Fourth Gospel. Cambridge: Cambridge University Press, 1963.

D. M. Smith, The Composition and Order of the Fourth Gospel: Bultmann’s Literary Theory. New Haven: Yale University Press, 1965.

R. E. Brown, The Gospel According to John. Anchor Bible 29-29A. Garden City: Doubleday, 1966-1970.

R. T. Fortna, The Gospel of Signs: A Reconstruction of the Narrative Source Underlying the Fourth Gospel. SNTSMS 11. Cambridge: Cambridge University Press, 1970.

W. Nicol, The Sēmeia in the Fourth Gospel: Tradition and Redaction. NovTSup 32. Leiden: Brill, 1972.

D. M. Smith, “The Milieu of the Johannine Miracle Source: A Proposal”, em R. Hamerton-Kelly; R. Scroggs (orgs.), Jews, Greeks and Christians: Religious Cultures in Late Antiquity. Leiden: Brill, 1976.

R. T. Fortna, The Fourth Gospel and Its Predecessor: From Narrative Source to Present Gospel. Philadelphia: Fortress, 1988.

U. C. von Wahlde, The Earliest Version of John’s Gospel: Recovering the Gospel of Signs. Wilmington: Michael Glazier, 1989.

E. Ruckstuhl; P. Dschulnigg, Stilkritik und Verfasserfrage im Johannesevangelium. NTOA 17. Freiburg (Suíça): Universitätsverlag; Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1991.

M. Hengel, Die johanneische Frage. WUNT 67. Tübingen: Mohr Siebeck, 1993.

G. Van Belle, The Signs Source in the Fourth Gospel: Historical Survey and Critical Evaluation of the Semeia Hypothesis (abre em nova janela). BETL 116. Leuven: Leuven University Press, 1994.

R. Bauckham, “John for Readers of Mark”, em R. Bauckham (org.), The Gospels for All Christians: Rethinking the Gospel Audiences. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

U. C. von Wahlde, The Gospel and Letters of John. 3 vols. Grand Rapids: Eerdmans, 2010.

J. Frey; M. Gruber; C. Karakolis; C. H. Williams (orgs.), The Semeia Narratives in the Gospel of John (abre em nova janela). WUNT 551. Tübingen: Mohr Siebeck, 2025 (com o balanço de G. Van Belle para 1994-2013).