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Anônimo · séc. I · Piedosos

Epístola de Barnabé

Também conhecida como Carta de Barnabé e Epístola do Pseudo-BarnabéTexto integral em portuguêsGratuito

Capítulo 1 — Depois da saudação, o autor declara que quer comunicar aos irmãos algo do que ele mesmo recebeu

Salve, filhos e filhas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos amou na paz.

Vendo que os frutos divinos da justiça abundam entre vós, alegro-me muito e sem medida pelos vossos espíritos felizes e honrados, porque recebestes com tanto fruto o dom espiritual enxertado em vós. Por isso também me alegro ainda mais interiormente, esperando ser salvo, porque vejo de verdade derramado sobre vós o Espírito que vem da fonte rica do Senhor. A vossa presença, tão desejada, encheu-me assim de admiração por vós. Estou, pois, persuadido disto e plenamente convencido em mim mesmo: desde que comecei a falar entre vós, compreendo muitas coisas, porque o Senhor me acompanhou no caminho da justiça. Também por isso estou estritamente obrigado a amar-vos mais que a minha própria alma, porque grandes são a fé e a caridade que habitam em vós, enquanto esperais a vida que ele prometeu. Considerando, pois, que, se eu me der ao trabalho de vos comunicar alguma parte do que eu mesmo recebi, será recompensa suficiente para mim servir a tais espíritos, apressei-me a escrever-vos brevemente, para que, junto com a vossa fé, tenhais um conhecimento perfeito. As doutrinas do Senhor são, pois, três: a esperança da vida, o seu começo e a sua consumação. Pois o Senhor nos fez conhecer pelos profetas as coisas passadas e as presentes, dando-nos também as primícias do conhecimento das futuras; e, vendo-as cumprir-se uma a uma, devemos aproximar-nos dele com reverência, com fé mais rica e espírito mais elevado. Eu, pois, não como vosso mestre, mas como um de vós, vos apresentarei algumas coisas pelas quais, nas circunstâncias presentes, possais alegrar-vos ainda mais.

Capítulo 2 — Os sacrifícios judaicos estão abolidos

Já que os dias são maus e Satanás detém o poder deste mundo, devemos cuidar de nós mesmos e investigar com diligência as ordenanças do Senhor. O temor e a paciência são auxiliares da nossa fé; a longanimidade e a continência combatem do nosso lado. Enquanto estas permanecem puras no que diz respeito ao Senhor, alegram-se com elas a Sabedoria, a Inteligência, a Ciência e o Conhecimento. Pois ele nos revelou por todos os profetas que não precisa de sacrifícios, nem de holocaustos, nem de oblações, dizendo assim: “Que me importa a multidão dos vossos sacrifícios?, diz o Senhor. Estou farto de holocaustos e não quero a gordura de cordeiros, nem o sangue de touros e de bodes, nem que venhais apresentar-vos diante de mim; pois quem vos pediu estas coisas? Não piseis mais os meus átrios, nem que tragais flor de farinha. O incenso é para mim abominação vã, e as vossas luas novas e os vossos sábados não os posso suportar”. Ele aboliu, portanto, estas coisas, para que a nova lei de nosso Senhor Jesus Cristo, que não tem o jugo da necessidade, tivesse uma oblação não feita por mãos humanas. E de novo lhes diz: “Acaso ordenei a vossos pais, quando saíram da terra do Egito, que me oferecessem holocaustos e sacrifícios? Antes, isto lhes ordenei: Nenhum de vós guarde no coração rancor contra o seu próximo, e não ameis o juramento falso”. Devemos, pois, tendo entendimento, perceber a intenção benigna do nosso Pai; pois ele nos fala, desejando que nós, não nos extraviando como eles, busquemos como nos aproximar dele. A nós, pois, ele declara: “Sacrifício [agradável] a Deus é um espírito contrito; perfume de suave odor ao Senhor é um coração que glorifica aquele que o fez”. Devemos, pois, irmãos, investigar cuidadosamente o que diz respeito à nossa salvação, para que o maligno, tendo entrado por meio do engano, não nos lance para fora da nossa [verdadeira] vida.

Capítulo 3 — Os jejuns dos judeus não são verdadeiros jejuns, nem agradáveis a Deus

Ele lhes diz de novo a respeito destas coisas: “Por que jejuais para mim como hoje, diz o Senhor, para que a vossa voz seja ouvida em gritos? Não escolhi este jejum, diz o Senhor, em que o homem humilha a sua alma. Ainda que curveis o pescoço como um anel e vos cubrais de saco e cinza, não o chamareis jejum agradável”. A nós, porém, diz: “Eis o jejum que escolhi, diz o Senhor: não que o homem humilhe a sua alma, mas que solte todo laço de iniquidade, desate as amarras dos contratos opressivos, ponha em liberdade os oprimidos, rasgue todo compromisso injusto, reparta o teu pão com o faminto, vista o nu quando o vires, recolha em tua casa os sem-teto, não despreze o humilde quando o encontrares e não [se afaste] dos da tua própria família. Então romperá a tua aurora, e a tua cura brotará depressa, e a justiça irá adiante de ti, e a glória de Deus te envolverá; e então clamarás, e Deus te ouvirá; enquanto ainda estiveres falando, ele dirá: Eis-me aqui contigo; se tirares do teu meio a cadeia [que prende os outros], o estender as mãos [para jurar falsamente] e as palavras de murmuração, e deres de bom grado o teu pão ao faminto, e tiveres compaixão da alma humilhada”. Para isto, pois, irmãos, ele é longânime: prevendo como o povo que preparou creria com simplicidade no seu Amado, revelou-nos de antemão todas estas coisas, para que não nos lancemos, como prosélitos temerários, às leis deles.

Capítulo 4 — O Anticristo está próximo; evitemos, pois, os erros judaicos

Convém-nos, pois, a nós, que investigamos muito sobre os acontecimentos próximos, procurar com diligência o que nos pode salvar. Fujamos, pois, completamente de todas as obras da iniquidade, para que não se apoderem de nós; e odiemos o erro do tempo presente, para pormos o nosso amor no mundo futuro; não soltemos as rédeas da nossa alma, para que não tenha liberdade de correr com os pecadores e os maus, para que não nos tornemos semelhantes a eles. Aproxima-se o escândalo final (ou fonte de perigo), a respeito do qual está escrito, como diz Henoc: “Para isto o Senhor abreviou os tempos e os dias, para que o seu Amado se apresse e venha à sua herança”. E o profeta também fala assim: “Dez reinos reinarão sobre a terra, e depois deles se levantará um pequeno rei, que abaterá de uma vez três dos reis”. Do mesmo modo diz Daniel acerca do mesmo: “E vi a quarta fera, perversa e forte, e mais feroz que todas as feras da terra, e como dela brotaram dez chifres, e deles um chifre pequeno, um rebento, e como abateu de uma vez três dos chifres grandes”. Deveis, pois, entender. E ainda vos peço isto, como um de vós, que vos ama a cada um e a todos mais que a minha própria alma: cuidai agora de vós mesmos e não sejais como alguns, que acumulam pecados, dizendo: “A aliança é deles e nossa”. Mas eles a perderam assim, definitivamente, depois que Moisés já a tinha recebido. Pois a Escritura diz: “E Moisés estava no monte jejuando quarenta dias e quarenta noites, e recebeu do Senhor a aliança, as tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor”; mas, voltando-se para os ídolos, eles a perderam. Pois o Senhor fala assim a Moisés: “Moisés, desce depressa, porque o povo que tiraste da terra do Egito transgrediu a lei”. E Moisés compreendeu [o que Deus queria dizer] e lançou das mãos as duas tábuas; e a aliança deles foi quebrada, para que a aliança de Jesus, o Amado, fosse selada em nosso coração, na esperança que vem da fé nele. Ora, desejando escrever-vos muitas coisas, não como vosso mestre, mas como convém a quem vos ama, procurei não deixar de vos escrever do que eu mesmo possuo, para a vossa purificação. Estejamos muito atentos nestes últimos dias; pois todo o tempo [passado] da vossa fé de nada vos aproveitará se agora, neste tempo perverso, não resistirmos também aos perigos que vêm, como convém aos filhos de Deus. Para que o Negro não encontre por onde entrar, fujamos de toda vaidade, odiemos completamente as obras do caminho da maldade. Não vos isoleis, vivendo à parte, como se já estivésseis [plenamente] justificados; mas, reunindo-vos num mesmo lugar, buscai juntos o que convém ao bem de todos. Pois a Escritura diz: “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes diante de si mesmos!” Sejamos espirituais; sejamos para Deus um templo perfeito. Quanto estiver em nós, meditemos o temor de Deus e guardemos os seus mandamentos, para nos alegrarmos nas suas ordenanças. O Senhor julgará o mundo sem acepção de pessoas. Cada um receberá conforme o que fez: se for justo, a sua justiça o precederá; se for mau, a paga da maldade estará diante dele. Cuidemos que, repousando tranquilos, como chamados [de Deus], não adormeçamos em nossos pecados, e o príncipe maligno, tomando poder sobre nós, não nos expulse do reino do Senhor. E atendei a isto ainda mais, meus irmãos, quando refletis e vedes que, depois de tão grandes sinais e prodígios realizados em Israel, eles foram assim [por fim] abandonados. Cuidemos de não sermos encontrados [cumprindo aquela palavra], como está escrito: “Muitos são chamados, mas poucos escolhidos”.

Capítulo 5 — A nova aliança, fundada nos sofrimentos de Cristo, leva à nossa salvação, mas à perdição dos judeus

Pois para isto o Senhor suportou entregar a sua carne à corrupção: para que fôssemos santificados pela remissão dos pecados, que se realiza pelo seu sangue da aspersão. Pois está escrito a respeito dele, em parte com referência a Israel, em parte a nós; e [a Escritura] diz assim: “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; pelas suas chagas fomos curados. Foi levado como ovelha ao matadouro, e como cordeiro mudo diante do tosquiador”. Devemos, pois, ser profundamente gratos ao Senhor, porque nos fez conhecer as coisas passadas, nos deu sabedoria acerca das presentes e não nos deixou sem entendimento quanto às futuras. Ora, a Escritura diz: “Não é injustamente que se estendem redes para as aves”. Isso significa que perece com justiça o homem que, conhecendo o caminho da justiça, se lança no caminho das trevas. E mais, meus irmãos: se o Senhor suportou sofrer pela nossa alma, sendo ele Senhor de todo o mundo, a quem Deus disse na criação do mundo: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, compreendei como suportou sofrer pela mão dos homens. Os profetas, tendo recebido dele a graça, profetizaram a seu respeito. E ele (porque convinha que se manifestasse na carne), para abolir a morte e manifestar a ressurreição dos mortos, suportou [o que suportou, e como suportou], a fim de cumprir a promessa feita aos pais e, preparando para si um povo novo, mostrar, enquanto habitava na terra, que, depois de ressuscitar os homens, também os julgará. Além disso, ensinando a Israel e realizando tantos milagres e sinais, pregou-lhe [a verdade] e o amou muito. Mas, quando escolheu os seus próprios apóstolos, que haviam de pregar o seu Evangelho, [escolheu-os entre os que] eram pecadores acima de todo pecado, para mostrar que veio “não chamar os justos, mas os pecadores à penitência”. Então manifestou ser o Filho de Deus. Pois, se não tivesse vindo na carne, como poderiam os homens ser salvos ao contemplá-lo? Se, olhando para o sol, que há de deixar de existir e é obra das suas mãos, os seus olhos não conseguem suportar os seus raios… O Filho de Deus veio, pois, na carne com este fim: para levar ao cúmulo os pecados dos que perseguiram até a morte os seus profetas. Para isto, então, ele suportou. Pois Deus diz: “A chaga da sua carne vem deles”; e: “Quando eu ferir o Pastor, então se dispersarão as ovelhas do rebanho”. Ele mesmo quis sofrer assim, pois era necessário que sofresse no lenho. Pois diz aquele que profetiza a seu respeito: “Poupa a minha alma da espada; pregai a minha carne com cravos, porque as assembleias dos maus se levantaram contra mim”. E de novo diz: “Eis que entreguei as minhas costas aos açoites e as minhas faces às bofetadas, e pus o meu rosto como rocha firme”.

Capítulo 6 — Os sofrimentos de Cristo e a nova aliança foram anunciados pelos profetas

Depois de cumprir o mandamento, que diz ele? “Quem é que vai disputar comigo? Que se oponha a mim. Ou quem quer entrar em juízo comigo? Que se aproxime do servo do Senhor.” “Ai de vós, porque todos envelhecereis como uma veste, e a traça vos devorará.” E de novo diz o profeta, já que ele foi posto como pedra forte para esmagar: “Eis que ponho nos alicerces de Sião uma pedra preciosa, escolhida, pedra angular, digna de honra”. Depois, que diz? “E quem confiar nela viverá para sempre.” A nossa esperança está, então, numa pedra? De modo algum. Mas [assim se fala] porque ele firmou a sua carne [como alicerce] com poder; pois diz: “E pôs-me como rocha firme”. E o profeta diz ainda: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular”. E de novo diz: “Este é o dia grande e admirável que o Senhor fez”. Escrevo-vos com mais simplicidade, para que entendais: eu sou o último dos servos do vosso amor. Que diz, pois, de novo o profeta? “A assembleia dos maus me cercou; rodearam-me como abelhas ao favo de mel”, e: “Sobre a minha veste lançaram sortes”. Já que ele havia de manifestar-se e sofrer na carne, o seu sofrimento foi anunciado de antemão. Pois o profeta diz contra Israel: “Ai da alma deles, porque tramaram um mau desígnio contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque nos é incômodo”. E Moisés também lhes diz: “Eis o que diz o Senhor Deus: Entrai na boa terra que o Senhor jurou [dar] a Abraão, a Isaac e a Jacó, e tomai posse dela, terra onde corre leite e mel”. Que diz, então, o Conhecimento? Aprendei: “Confiai”, diz ele, “naquele que há de manifestar-se a vós na carne, isto é, Jesus”. Pois o homem é terra que sofre, já que Adão foi formado da face da terra. Que significa, então: “na boa terra, terra onde corre leite e mel”? Bendito seja o nosso Senhor, que pôs em nós a sabedoria e a inteligência dos seus segredos. Pois o profeta diz: “Quem entenderá a parábola do Senhor, senão o sábio e prudente, que ama o seu Senhor?” Já que, renovando-nos pela remissão dos pecados, nos fez segundo outro modelo, [é seu propósito] que tenhamos alma de crianças, já que nos criou de novo pelo seu Espírito. Pois a Escritura diz a nosso respeito, quando fala ao Filho: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança; e domine sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar”. E o Senhor, ao ver a bela criatura que é o homem, disse: “Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra”. Estas coisas [foram ditas] ao Filho. De novo te mostrarei como, a nosso respeito, ele realizou uma segunda criação nestes últimos tempos. O Senhor diz: “Eis que farei as últimas coisas como as primeiras”. Com respeito a isto, então, o profeta proclamou: “Entrai na terra onde corre leite e mel e dominai-a”. Eis, pois, que fomos refeitos, como diz de novo em outro profeta: “Eis, diz o Senhor, que tirarei destes”, isto é, daqueles que o Espírito do Senhor previa, “os corações de pedra e porei neles corações de carne”; porque ele havia de manifestar-se na carne e habitar entre nós. Pois, meus irmãos, a morada do nosso coração é um templo santo para o Senhor. Pois diz de novo o Senhor: “E com que me apresentarei diante do Senhor meu Deus e serei glorificado?” Ele diz: “Eu te louvarei na Igreja, no meio de meus irmãos, e te cantarei no meio da assembleia dos santos”. Nós somos, pois, aqueles que ele introduziu na boa terra. Que significam, então, o leite e o mel? Isto: que, assim como a criança é sustentada primeiro com mel e depois com leite, assim também nós, vivificados e sustentados pela fé na promessa e pela palavra, viveremos dominando a terra. Mas ele disse acima: “Cresçam e dominem sobre os peixes”. Quem é capaz, então, de governar os animais, os peixes ou as aves do céu? Pois devemos entender que governar implica autoridade, de modo que se dê ordens e se domine. Se, portanto, isto não acontece agora, ele no-lo prometeu. Quando? Quando nós mesmos formos aperfeiçoados [a ponto de] nos tornarmos herdeiros da aliança do Senhor.

Capítulo 7 — O jejum e o bode expiatório foram figuras de Cristo

Entendei, pois, filhos da alegria, que o bom Senhor nos mostrou de antemão todas as coisas, para que saibamos a quem devemos dar graças e louvor por tudo. Se, pois, o Filho de Deus, que é Senhor [de todas as coisas] e que há de julgar os vivos e os mortos, sofreu para que a sua chaga nos desse a vida, creiamos que o Filho de Deus não poderia sofrer senão por nossa causa. Além disso, pregado na cruz, deram-lhe de beber vinagre e fel. Ouvi como os sacerdotes do povo o indicaram de antemão. Escrito o mandamento, o Senhor ordenou que todo aquele que não guardasse o jejum fosse condenado à morte, porque também ele mesmo havia de oferecer em sacrifício pelos nossos pecados o vaso do Espírito, para que se cumprisse plenamente a figura dada em Isaac, quando foi oferecido sobre o altar. Que diz, então, no profeta? “E comam do bode oferecido com jejum por todos os seus pecados.” Prestai muita atenção: “E só os sacerdotes comam as entranhas, sem lavar, com vinagre”. Por quê? Porque a mim, que hei de oferecer a minha carne pelos pecados do meu povo novo, havereis de dar de beber fel com vinagre: comei vós sozinhos, enquanto o povo jejua e se lamenta em saco e cinza. [Isto se fazia] para mostrar que era necessário que ele sofresse por eles. Como dizia, então, o mandamento? Prestai atenção. Tomai dois bodes de bom aspecto e semelhantes entre si e oferecei-os. E o sacerdote tome um como holocausto pelos pecados. E que deviam fazer com o outro? “Maldito”, diz ele, “é o outro.” Notai como aparece agora a figura de Jesus. “E todos vós cuspi nele e picai-o, cingi-lhe a cabeça com lã escarlate e assim seja levado ao deserto.” E, feito tudo isso, quem leva o bode o conduz ao deserto, tira-lhe a lã e a põe sobre um arbusto chamado raquia, de que costumamos comer os brotos quando os encontramos no campo. Só deste arbusto os frutos são doces. Por que, então, isto? Prestai bem atenção. [Vedes] “um sobre o altar e o outro maldito”; e por que [vedes] coroado o que é maldito? Porque o verão então, naquele dia, com uma túnica escarlate sobre o corpo até os pés, e dirão: “Não é este aquele que outrora desprezamos, traspassamos, escarnecemos e crucificamos? Verdadeiramente é este aquele que então dizia ser o Filho de Deus”. Pois como é semelhante a ele! Por isso [exigia] que os bodes fossem de bom aspecto e semelhantes: para que, quando o virem chegar, se espantem com a semelhança do bode. Eis, pois, a figura de Jesus, que havia de sofrer. Mas por que põem a lã no meio dos espinhos? É figura de Jesus posta diante dos olhos da Igreja. [Põem a lã entre espinhos] para que quem quiser levá-la precise sofrer muito, porque o espinho é terrível, e só a obtenha à custa de sofrimento. Assim também, diz ele, “os que querem ver-me e alcançar o meu reino devem obter-me pela tribulação e pelo sofrimento”.

Capítulo 8 — A novilha vermelha, figura de Cristo

De que pensais que é figura o fato de ter sido ordenado a Israel que homens cheios de pecados oferecessem uma novilha, a imolassem e a queimassem; que depois meninos tomassem a cinza e a pusessem em vasos, atassem a um pau lã púrpura com hissopo e assim os meninos aspergissem o povo, um por um, para que se purificasse dos seus pecados? Vede como ele vos fala com simplicidade. O novilho é Jesus; os pecadores que o oferecem são os que o levaram ao matadouro. Mas agora esses homens já não são culpados, já não são tidos por pecadores. E os meninos que aspergem são os que nos anunciaram a remissão dos pecados e a purificação do coração. A estes deu autoridade para pregar o Evangelho; eram doze, correspondendo às doze tribos de Israel. Mas por que são três os meninos que aspergem? Para corresponder a Abraão, Isaac e Jacó, porque estes foram grandes diante de Deus. E por que a lã [é posta] sobre o lenho? Porque é pelo lenho que Jesus possui o seu reino, de modo que [pela cruz] os que creem nele viverão para sempre. E por que o hissopo vai junto com a lã? Porque no seu reino haverá dias maus e impuros, nos quais seremos salvos; [e] porque quem sofre no corpo é curado pela virtude purificadora do hissopo. E por isso estas coisas, sendo assim, são claras para nós, mas obscuras para eles, porque não ouviram a voz do Senhor.

Capítulo 9 — O sentido espiritual da circuncisão

Ele fala ainda dos nossos ouvidos, de como circuncidou os nossos ouvidos e o nosso coração. O Senhor diz no profeta: “Ao ouvir com o ouvido, me obedeceram”. E de novo diz: “Os que estão longe ouvirão com os ouvidos; conhecerão o que fiz”. E: “Circuncidai os vossos corações, diz o Senhor”. E de novo diz: “Ouve, Israel, porque isto diz o Senhor teu Deus”. E mais uma vez o Espírito do Senhor proclama: “Quem é que quer viver para sempre? Ouça com os ouvidos a voz do meu servo”. E de novo diz: “Ouvi, céus, e escuta, terra, porque Deus falou”. Estas coisas são a prova. E de novo diz: “Ouvi a palavra do Senhor, chefes deste povo”. E de novo diz: “Ouvi, filhos, a voz do que clama no deserto”. Portanto, ele circuncidou os nossos ouvidos, para que ouvíssemos a sua palavra e crêssemos; pois a circuncisão em que eles confiavam foi abolida. Ele declarou que a circuncisão não é a da carne; mas eles transgrediram, porque um anjo mau os enganou. Ele lhes diz: “Isto diz o Senhor vosso Deus” (aqui encontro um mandamento novo): “Não semeeis entre espinhos, mas circuncidai-vos para o Senhor”. E por que fala assim: “Circuncidai a dureza do vosso coração e não endureçais a vossa cerviz”? E de novo: “Eis, diz o Senhor, que todas as nações são incircuncisas na carne, mas este povo é incircunciso de coração”. Mas dirás: “Sim, o povo foi circuncidado como selo”. Mas também o é todo sírio e árabe, e todos os sacerdotes dos ídolos; estão também estes, então, dentro do vínculo da sua aliança? Sim, também os egípcios praticam a circuncisão. Aprendei, pois, meus filhos, ricamente sobre todas as coisas: Abraão, o primeiro a praticar a circuncisão, a praticou olhando em espírito para Jesus, tendo recebido os mistérios de três letras. Pois [a Escritura] diz: “E Abraão circuncidou dez, oito e trezentos homens da sua casa”. Que conhecimento lhe foi dado nisto? Aprendei primeiro os dezoito e depois os trezentos. O dez e o oito se representam assim: dez por I, oito por H. Tendes [as iniciais do nome de] Jesus. E, porque a cruz havia de exprimir a graça [da nossa redenção] pela letra T, diz também: “trezentos”. Indica, pois, Jesus por duas letras e a cruz por uma. Sabe-o aquele que pôs em nós o dom enxertado da sua doutrina. Ninguém recebeu de mim um ensinamento mais excelente do que este; mas sei que sois dignos.

Capítulo 10 — O sentido espiritual dos preceitos de Moisés sobre os diversos alimentos

Ora, por que disse Moisés: “Não comerás o porco, nem a águia, nem o gavião, nem o corvo, nem peixe algum que não tenha escamas”? Ao fazê-lo, tinha em mente três ensinamentos. Além disso, o Senhor lhes diz no Deuteronômio: “E estabelecerei as minhas ordenanças entre este povo”. Não há, então, um mandamento de Deus de que não comam [estas coisas]? Há, mas Moisés falou em sentido espiritual. Por isso nomeou o porco, como quem diz: “Não te juntarás a homens semelhantes aos porcos”. Pois, quando vivem nos prazeres, esquecem-se do seu Senhor; mas, quando passam necessidade, reconhecem o Senhor. E [do mesmo modo] o porco, quando comeu, não conhece o seu dono; mas, quando tem fome, grita e, recebendo comida, cala-se de novo. “Nem comerás”, diz ele, “a águia, nem o gavião, nem o milhafre, nem o corvo.” Quer dizer: “Não te juntarás a homens que não sabem obter o seu sustento com trabalho e suor, mas na sua iniquidade se apoderam do alheio e, embora tenham aparência de simplicidade, espreitam para roubar os outros”. Assim estas aves, ficando ociosas, procuram como devorar a carne alheia, mostrando-se pestes [para todos] pela sua maldade. “E não comerás”, diz ele, “a moreia, nem o polvo, nem a sépia.” Quer dizer: “Não te juntarás nem te tornarás semelhante a homens que são ímpios até o fim e estão condenados à morte”. Assim como esses peixes, os únicos amaldiçoados, flutuam no fundo, não nadando [à superfície] como os demais, mas habitam no lodo que está no fundo. Além disso: “Não comerás”, diz ele, “a lebre”. Por quê? “Não serás corruptor de meninos, nem semelhante a eles.” Porque a lebre multiplica, ano após ano, os lugares da sua concepção; pois tem tantos quantos anos vive. Além disso: “Não comerás a hiena”. Quer dizer: “Não serás adúltero, nem corruptor, nem semelhante aos que o são”. Por quê? Porque esse animal muda de sexo a cada ano, sendo ora macho, ora fêmea. Além disso, com razão abominou a doninha. Pois quer dizer: “Não serás semelhante aos que, segundo se diz, cometem impureza com a boca, nem te juntarás às mulheres impuras que cometem iniquidade com a boca. Pois esse animal concebe pela boca”. Moisés, pois, deu três ensinamentos sobre os alimentos em sentido espiritual; mas eles os receberam segundo o desejo da carne, como se ele tivesse falado de alimentos [no sentido literal]. Davi, porém, compreende o conhecimento dos três ensinamentos e fala do mesmo modo: “Bem-aventurado o homem que não andou no conselho dos ímpios”, assim como os peixes [mencionados] vão nas trevas para as profundezas [do mar]; “e não se deteve no caminho dos pecadores”, assim como os que dizem temer o Senhor, mas se extraviam como porcos; “e não se assentou na cadeira dos escarnecedores”, assim como as aves que espreitam a presa. Tomai pleno e firme conhecimento disto. Mas Moisés diz ainda: “Comereis todo animal de casco fendido e que rumina”. Que quer dizer? [O animal que rumina designa aquele] que, recebendo o alimento, reconhece aquele que o alimenta e, saciado por ele, mostra-se alegre. Falou bem [Moisés], olhando para o mandamento. Que quer dizer, então? Que devemos juntar-nos aos que temem o Senhor, aos que meditam em seu coração o mandamento que receberam, aos que anunciam os juízos do Senhor e os observam, aos que sabem que a meditação é obra de alegria e ruminam a palavra do Senhor. E que significa o casco fendido? Que o justo também anda neste mundo, mas espera a santa vida [futura]. Vede quão bem legislou Moisés. Mas como podiam eles entender ou compreender estas coisas? Nós, porém, entendendo retamente os seus mandamentos, explicamo-los como o Senhor quis. Para isto ele circuncidou os nossos ouvidos e o nosso coração: para que entendêssemos estas coisas.

Capítulo 11 — O batismo e a cruz prefigurados no Antigo Testamento

Investiguemos ainda se o Senhor teve o cuidado de prefigurar a água [do batismo] e a cruz. Quanto à água, está escrito, a respeito dos israelitas, que não receberiam o batismo que conduz à remissão dos pecados, mas procurariam outro para si. O profeta declara, pois: “Assombra-te, céu, e trema a terra por causa disto: este povo cometeu dois grandes males: abandonou-me a mim, fonte viva, e cavou para si cisternas rachadas. Acaso o meu monte santo, Sião, é uma rocha deserta? Pois sereis como os filhotes de uma ave, que voam quando o ninho é tirado”. E de novo diz o profeta: “Irei adiante de ti, aplainarei os montes, quebrarei as portas de bronze e despedaçarei as trancas de ferro; e te darei os tesouros secretos, escondidos, invisíveis, para que saibam que eu sou o Senhor Deus”. E: “Habitará numa caverna elevada da rocha forte”. Além disso, que diz a respeito do Filho? “A sua água é segura; vereis o Rei na sua glória, e a vossa alma meditará o temor do Senhor.” E de novo diz em outro profeta: “O homem que faz estas coisas será como a árvore plantada junto às correntes de água, que dará o seu fruto a seu tempo; a sua folha não murchará, e tudo o que fizer prosperará. Não são assim os ímpios, não são assim, mas como a palha que o vento varre da face da terra. Por isso os ímpios não se levantarão no julgamento, nem os pecadores no conselho dos justos; pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá”. Notai como descreveu ao mesmo tempo a água e a cruz. Pois estas palavras querem dizer: Bem-aventurados os que, pondo a sua confiança na cruz, desceram à água; pois, diz ele, receberão a sua recompensa a seu tempo; então declara: Eu os recompensarei. Mas agora diz: “As suas folhas não murcharão”. Isto quer dizer que toda palavra que sair da vossa boca com fé e caridade servirá para a conversão e a esperança de muitos. De novo diz outro profeta: “E a terra de Jacó será exaltada acima de toda terra”. Isto significa o vaso do seu Espírito, que ele glorificará. Além disso, que diz? “E havia um rio que corria à direita, e dele brotavam belas árvores; e quem comer delas viverá para sempre.” Isto quer dizer que descemos à água cheios de pecados e de imundície, mas subimos dando fruto no coração, tendo no espírito o temor [de Deus] e a esperança em Jesus. “E quem comer destas viverá para sempre”: isto quer dizer que todo aquele, declara ele, que te ouvir falar e crer viverá para sempre.

Capítulo 12 — A cruz de Cristo, muitas vezes anunciada no Antigo Testamento

Do mesmo modo indica a cruz de Cristo em outro profeta, que diz: “E quando se cumprirão estas coisas? E o Senhor diz: Quando uma árvore se dobrar e se levantar de novo, e quando correr sangue da madeira”. Aqui tendes de novo uma indicação da cruz e daquele que havia de ser crucificado. E ainda fala disto em Moisés, quando Israel foi atacado por estrangeiros. E, para lhes lembrar, quando atacados, que por causa dos seus pecados tinham sido entregues à morte, o Espírito fala ao coração de Moisés que fizesse uma figura da cruz e daquele que nela havia de sofrer; pois, se não pusessem nele a sua confiança, seriam vencidos para sempre. Moisés, pois, pôs uma arma sobre outra no meio da colina e, subindo sobre elas, para ficar mais alto que todo o povo, estendeu as mãos, e assim Israel voltou a prevalecer. Mas, quando baixava de novo as mãos, eram de novo massacrados. Por quê? Para que soubessem que não podiam ser salvos se não pusessem nele a sua confiança. E em outro profeta declara: “O dia todo estendi as mãos para um povo incrédulo, que contradiz o meu caminho justo”. E de novo Moisés faz uma figura de Jesus, [indicando] que era necessário que ele sofresse [e também] que seria o autor da vida [para os outros], ele, a quem pensavam ter destruído na cruz, quando Israel sucumbia. Pois, já que a transgressão foi cometida por Eva por meio da serpente, [o Senhor] fez com que serpentes de toda [espécie] os mordessem, e morriam, para os convencer de que por causa da sua transgressão eram entregues à angústia da morte. Além disso, Moisés, que tinha ordenado: “Não tereis imagem esculpida nem fundida como vosso deus”, fez assim para revelar uma figura de Jesus. Moisés faz, então, uma serpente de bronze, põe-na sobre uma haste e, por pregão, reúne o povo. Reunidos, pediram a Moisés que oferecesse sacrifício por eles e orasse pela sua cura. E Moisés lhes falou, dizendo: “Quando algum de vós for mordido, venha à serpente posta sobre a haste, e espere e creia que ela, embora morta, pode dar-lhe vida, e logo será curado”. E assim fizeram. Tens também nisto [uma indicação da] glória de Jesus; pois nele e para ele são todas as coisas. Que diz, ainda, Moisés a Jesus (Josué), filho de Nave, quando lhe deu este nome, sendo ele profeta, com este único fim: que todo o povo ouvisse que o Pai revelaria tudo acerca do seu Filho Jesus ao filho de Nave? Dado-lhe este nome, quando o enviou a explorar a terra, disse-lhe: “Toma um livro em tuas mãos e escreve o que o Senhor declara: que o Filho de Deus, nos últimos dias, arrancará pela raiz toda a casa de Amalec”. Eis de novo: Jesus, que se manifestou em figura e na carne, não é filho do homem, mas Filho de Deus. Já que haviam de dizer que o Cristo era filho de Davi, o próprio Davi, temendo e compreendendo o erro dos pecadores, diz: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como escabelo dos teus pés”. E de novo diz Isaías: “Disse o Senhor a Cristo, meu Senhor, cuja mão direita tomei, que as nações lhe obedeçam; e despedaçarei a força dos reis”. Vede como Davi o chama Senhor e Filho de Deus.

Capítulo 13 — Os cristãos, e não os judeus, são os herdeiros da aliança

Mas vejamos se é este povo o herdeiro, ou o primeiro, e se a aliança pertence a nós ou a eles. Ouvi agora o que a Escritura diz a respeito do povo. Isaac orou por Rebeca, sua mulher, porque era estéril; e ela concebeu. Depois, Rebeca foi consultar o Senhor; e o Senhor lhe disse: “Duas nações estão no teu ventre, e dois povos nas tuas entranhas; um povo superará o outro, e o mais velho servirá ao mais novo”. Deveis entender quem era Isaac, quem era Rebeca, e de que pessoas declarou que este povo seria maior que aquele. E em outra profecia Jacó fala mais claramente a seu filho José, dizendo: “Eis que o Senhor não me privou da tua presença; traze-me os teus filhos, para que eu os abençoe”. E ele trouxe Manassés e Efraim, desejando que Manassés fosse abençoado, porque era o mais velho. Com este fim José o levou à direita de seu pai Jacó. Mas Jacó viu em espírito a figura do povo que havia de surgir depois. E que diz [a Escritura]? E Jacó cruzou as mãos e pôs a mão direita sobre a cabeça de Efraim, o segundo e mais novo, e o abençoou. E José disse a Jacó: “Passa a tua mão direita para a cabeça de Manassés, porque é o meu primogênito”. E Jacó disse: “Eu sei, meu filho, eu sei; mas o mais velho servirá ao mais novo; também ele, porém, será abençoado”. Vedes sobre quem pôs [as mãos]: que este povo seria o primeiro e o herdeiro da aliança. Se, além disso, o mesmo foi indicado por meio de Abraão, chegamos à perfeição do nosso conhecimento. Que diz, então, a Abraão? “Porque creste, isto te foi imputado como justiça; eis que te constituí pai das nações que creem no Senhor na incircuncisão.”

Capítulo 14 — O Senhor nos deu a aliança que Moisés recebeu e quebrou

Sim [assim é]; mas investiguemos se o Senhor deu de fato ao povo a aliança que jurou aos pais que daria. Deu-a; mas eles não foram dignos de recebê-la, por causa dos seus pecados. Pois o profeta declara: “E Moisés estava jejuando quarenta dias e quarenta noites no monte Sinai, para receber a aliança do Senhor para o povo”. E recebeu do Senhor duas tábuas, escritas em espírito pelo dedo da mão do Senhor. E Moisés, tendo-as recebido, as trazia para entregá-las ao povo. E o Senhor disse a Moisés: “Moisés, Moisés, desce depressa, porque pecou o teu povo, que tiraste da terra do Egito”. E Moisés compreendeu que eles tinham feito de novo imagens fundidas; e lançou das mãos as tábuas, e as tábuas da aliança do Senhor quebraram-se. Moisés, pois, a recebeu, mas eles se mostraram indignos. Aprendei agora como nós a recebemos. Moisés a recebeu como servo; mas o próprio Senhor, tendo sofrido por nós, no-la deu, para que fôssemos o povo da herança. Ele se manifestou para que eles completassem as suas iniquidades e nós, constituídos herdeiros por meio dele, recebêssemos a aliança do Senhor Jesus, que foi preparado para isto: para que, manifestando-se em pessoa, resgatasse das trevas os nossos corações (já consumidos pela morte e entregues à iniquidade do erro) e, pela sua palavra, estabelecesse conosco uma aliança. Pois está escrito como o Pai, estando para nos resgatar das trevas, lhe ordenou que preparasse para si um povo santo. O profeta declara, pois: “Eu, o Senhor teu Deus, te chamei na justiça, tomarei a tua mão e te fortalecerei; e te dei como aliança do povo e luz das nações, para abrir os olhos dos cegos, tirar dos grilhões os presos e da prisão os que estão sentados nas trevas”. Vedes, pois, de onde fomos resgatados. E de novo diz o profeta: “Eis que te pus como luz das nações, para que sejas salvação até os confins da terra, diz o Senhor Deus que te resgata”. E de novo diz o profeta: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar o Evangelho aos humildes; enviou-me para curar os de coração quebrantado, proclamar a libertação aos cativos e a recuperação da vista aos cegos; para anunciar o ano agradável do Senhor e o dia da retribuição; para consolar todos os que choram”.

Capítulo 15 — O falso e o verdadeiro sábado

Além disso, está escrito acerca do sábado no Decálogo que [o Senhor] falou face a face a Moisés no monte Sinai: “Santificai o sábado do Senhor com mãos limpas e coração puro”. E diz em outro lugar: “Se os meus filhos guardarem o sábado, farei repousar sobre eles a minha misericórdia”. O sábado é mencionado no princípio da criação [assim]: “E Deus fez em seis dias as obras das suas mãos, e terminou no sétimo dia, e nele descansou, e o santificou”. Atendei, meus filhos, ao sentido desta expressão: “Terminou em seis dias”. Quer dizer que o Senhor consumará todas as coisas em seis mil anos, pois para ele um dia é como mil anos. E ele mesmo o atesta, dizendo: “Eis que o dia de hoje será como mil anos”. Portanto, meus filhos, em seis dias, isto é, em seis mil anos, todas as coisas serão consumadas. “E descansou no sétimo dia.” Isto quer dizer: quando o seu Filho, vindo [de novo], destruir o tempo do iníquo, julgar os ímpios e mudar o sol, a lua e as estrelas, então descansará verdadeiramente no sétimo dia. Além disso, diz: “Tu o santificarás com mãos puras e coração puro”. Se, portanto, alguém pode agora santificar o dia que Deus santificou sem ser puro de coração em todas as coisas, estamos enganados. Eis, pois: santifica-o verdadeiramente quem repousa de modo devido, quando nós mesmos, recebida a promessa, não existindo mais a iniquidade e todas as coisas tendo sido renovadas pelo Senhor, pudermos praticar a justiça. Então poderemos santificá-lo, depois de termos sido santificados nós mesmos. Além disso, diz-lhes: “As vossas luas novas e os vossos sábados não os posso suportar”. Vedes como fala: Os vossos sábados de agora não me são agradáveis, mas sim o que eu fiz, [a saber,] quando, dando repouso a todas as coisas, farei o começo do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Por isso também celebramos com alegria o oitavo dia, no qual também Jesus ressuscitou dos mortos. E, depois de se manifestar, subiu aos céus.

Capítulo 16 — O templo espiritual de Deus

Além disso, vos falarei também do templo: de como os infelizes [judeus], andando no erro, puseram a sua confiança não no próprio Deus, mas no templo, como se fosse a casa de Deus. Pois, quase à maneira dos gentios, o adoravam no templo. Mas aprendei como fala o Senhor, abolindo-o: “Quem mediu o céu com o palmo e a terra com a palma da mão? Não fui eu?” “Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra, o escabelo dos meus pés; que casa me edificareis, ou qual é o lugar do meu repouso?” Vedes que a esperança deles é vã. Além disso, diz ainda: “Eis que os que destruíram este templo, eles mesmos o reedificarão”. Assim aconteceu. Pois, por terem ido à guerra, foi destruído pelos seus inimigos; e agora eles, como servos dos seus inimigos, o reedificarão. De novo foi revelado que a cidade, o templo e o povo de Israel haviam de ser entregues. Pois a Escritura diz: “E acontecerá nos últimos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do seu pasto, o seu redil e a sua torre”. E aconteceu como o Senhor tinha dito. Investiguemos, então, se ainda existe um templo de Deus. Existe, onde ele mesmo declarou que o faria e o terminaria. Pois está escrito: “E acontecerá que, completada a semana, o templo de Deus será edificado gloriosamente em nome do Senhor”. Descubro, pois, que existe um templo. Aprendei, então, como será edificado em nome do Senhor. Antes de crermos em Deus, a morada do nosso coração era corrupta e fraca, como de fato um templo feito por mãos humanas. Pois estava cheia de idolatria e era morada de demônios, porque fazíamos o que era contrário [à vontade de] Deus. Mas será edificado, notai, em nome do Senhor, para que o templo do Senhor seja edificado gloriosamente. Como? Aprendei [o seguinte]. Recebida a remissão dos pecados e posta a nossa esperança no nome do Senhor, tornamo-nos criaturas novas, formadas de novo desde o princípio. Por isso, em nossa morada, Deus habita verdadeiramente em nós. Como? A sua palavra de fé, o seu chamado da promessa, a sabedoria das suas ordenanças, os mandamentos da sua doutrina; ele mesmo profetizando em nós, ele mesmo habitando em nós; abrindo a nós, que éramos escravos da morte, as portas do templo, isto é, a boca; e, dando-nos a penitência, introduziu-nos no templo incorruptível. Quem deseja ser salvo, pois, não olha para o homem, mas para aquele que habita nele e fala nele, admirado de nunca o ter ouvido dizer tais palavras com a sua boca, nem de ter ele mesmo desejado ouvi-las. Este é o templo espiritual edificado para o Senhor.

Capítulo 17 — Conclusão da primeira parte da epístola

Tanto quanto foi possível e se pôde fazer com clareza, tenho a esperança de que, segundo o meu desejo, não omiti nenhuma das coisas [que agora pedem atenção] que dizem respeito à vossa salvação. Pois, se eu vos escrevesse sobre as coisas futuras, não entenderíeis, porque tal conhecimento está escondido em parábolas. Estas coisas, pois, são assim.

Capítulo 18 — Segunda parte da epístola: os dois caminhos

Mas passemos agora a outro conhecimento e ensinamento. Há dois caminhos de ensinamento e de poder: um da luz e outro das trevas. Mas há grande diferença entre estes dois caminhos. Pois sobre um estão postos os anjos de Deus, portadores de luz; sobre o outro, os anjos de Satanás. E ele (isto é, Deus) é Senhor pelos séculos dos séculos; mas ele (isto é, Satanás) é príncipe do tempo presente da iniquidade.

Capítulo 19 — O caminho da luz

O caminho da luz é, pois, este. Se alguém deseja caminhar até o lugar determinado, deve ser zeloso nas suas obras. O conhecimento que nos é dado para andar neste caminho é o seguinte. Amarás aquele que te criou; glorificarás aquele que te resgatou da morte. Serás simples de coração e rico de espírito. Não te juntarás aos que andam no caminho da morte. Odiarás fazer o que desagrada a Deus; odiarás toda hipocrisia. Não abandonarás os mandamentos do Senhor. Não te exaltarás, mas serás humilde de espírito. Não tomarás a glória para ti. Não tramarás o mal contra o teu próximo. Não deixarás entrar a arrogância na tua alma. Não cometerás fornicação; não cometerás adultério; não corromperás os jovens. Não deixarás a palavra de Deus sair dos teus lábios com impureza alguma. Não farás acepção de pessoas ao repreender alguém por uma transgressão. Serás manso, serás pacífico. Tremerás diante das palavras que ouves. Não guardarás rancor contra o teu irmão. Não ficarás indeciso quanto a se uma coisa será ou não. Não tomarás em vão o nome do Senhor. Amarás o teu próximo mais que a tua própria alma. Não matarás a criança por meio do aborto, nem a destruirás depois de nascida. Não retirarás a tua mão do teu filho ou da tua filha, mas desde a infância lhes ensinarás o temor do Senhor. Não cobiçarás o que é do teu próximo, nem serás avarento. Não unirás a tua alma aos soberbos, mas conviverás com os justos e humildes. Recebe como bens as provações que te sobrevierem. Não serás de ânimo dobre nem de língua dupla, porque a língua dupla é laço de morte. Serás submisso ao Senhor e aos [demais] senhores, como à imagem de Deus, com modéstia e temor. Não darás ordens com amargura à tua serva ou ao teu servo, que esperam no mesmo [Deus], para que não deixes de reverenciar o Deus que está acima de ambos; pois ele veio chamar os homens não segundo a aparência, mas segundo o que o Espírito preparou. Repartirás todas as coisas com o teu próximo; não dirás que algo é teu; pois, se sois participantes em comum das coisas incorruptíveis, quanto mais [o deveis ser] das corruptíveis! Não serás precipitado no falar, porque a boca é laço de morte. Quanto puderes, serás puro na tua alma. Não estejas pronto a estender as mãos para receber e a recolhê-las para dar. Amarás como a menina dos teus olhos todo aquele que te anuncia a palavra do Senhor. Lembrar-te-ás do dia do juízo, noite e dia. Procurarás cada dia a presença dos santos, seja trabalhando pela palavra e indo exortá-los, e meditando como salvar uma alma pela palavra, seja trabalhando com as tuas mãos para o resgate dos teus pecados. Não hesitarás em dar, nem murmurarás ao dar. “Dá a todo aquele que te pede”, e conhecerás quem é o bom pagador da recompensa. Guardarás o que recebeste, sem nada acrescentar nem tirar. Odiarás até o fim o maligno. Julgarás com justiça. Não provocarás divisão, mas pacificarás os que contendem, reconciliando-os. Confessarás os teus pecados. Não irás à oração com má consciência. Este é o caminho da luz.

Capítulo 20 — O caminho das trevas

Mas o caminho das trevas é tortuoso e cheio de maldição; pois é o caminho da morte eterna com castigo, no qual estão as coisas que destroem a alma: idolatria, arrogância, soberba do poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, homicídio, rapina, altivez, transgressão, engano, malícia, presunção, envenenamento, magia, avareza, falta do temor de Deus. [Neste caminho estão também] os perseguidores dos bons, os que odeiam a verdade, os que amam a mentira, os que não conhecem a recompensa da justiça, os que não se apegam ao bem, os que não fazem justiça à viúva e ao órfão, os que não vigiam no temor de Deus, [mas se inclinam] à maldade, de quem estão longe a mansidão e a paciência; os que amam a vaidade, buscam a recompensa, não têm compaixão do necessitado, não socorrem o que está oprimido pelo trabalho; os que são propensos à maledicência, os que não conhecem aquele que os fez, os assassinos de crianças, os destruidores da obra de Deus; os que repelem o necessitado, oprimem o aflito, defendem os ricos, julgam iniquamente os pobres e são pecadores em tudo.

Capítulo 21 — Conclusão

É bom, pois, que quem aprendeu os juízos do Senhor, todos os que estão escritos, ande neles. Pois quem os guarda será glorificado no reino de Deus; mas quem escolhe outras coisas perecerá com as suas obras. Por isso haverá ressurreição, por isso haverá retribuição. Peço-vos, a vós que sois superiores, se aceitais algum conselho da minha boa vontade: tende entre vós aqueles a quem fazer o bem; não os abandoneis. Pois está próximo o dia em que todas as coisas perecerão com o maligno. Próximo está o Senhor, e a sua recompensa. De novo e mais uma vez vos peço: sede bons legisladores uns dos outros; permanecei conselheiros fiéis uns dos outros; tirai do vosso meio toda hipocrisia. E que Deus, que governa o mundo inteiro, vos dê sabedoria, inteligência, entendimento, conhecimento dos seus juízos, com paciência. E deixai-vos ensinar por Deus, procurando com diligência o que o Senhor vos pede, e fazei-o, para que estejais seguros no dia do juízo. E, se guardais alguma lembrança do bem, lembrai-vos de mim, meditando nestas coisas, para que o meu desejo e a minha vigilância resultem em algum bem. Peço-vos isto como um favor. Enquanto ainda estais neste belo vaso, não falteis em nenhuma destas coisas, mas buscai-as sem cessar e cumpri todo mandamento; pois são dignas disso. Por isso me empenhei ainda mais em vos escrever, quanto me foi possível, para vos alegrar. Adeus, filhos do amor e da paz. O Senhor da glória e de toda graça esteja com o vosso espírito. Amém.