EVANGELHO DA INFÂNCIA DE TIAGO Protoevangelho de Tiago: O Nascimento de Maria, a santa Mãe de Deus, e muito gloriosa Mãe de Jesus Cristo Anônimo Obra apócrifa. Não pertence ao cânon das Sagradas Escrituras; é apresentada aqui como documento histórico do cristianismo antigo. CAPÍTULO 1 Nos registros das doze tribos de Israel havia Joaquim, homem riquíssimo, que levava em dobro as suas ofertas, dizendo: “Do que me sobra será para todo o povo, e a oferta pelo meu perdão será para o Senhor, em expiação por mim”. Estava próximo o grande dia do Senhor, e os filhos de Israel traziam as suas ofertas. E Rúben pôs-se diante dele, dizendo: “Não te é permitido apresentar primeiro as tuas ofertas, porque não geraste descendência em Israel”. E Joaquim ficou muito triste e foi aos registros das doze tribos do povo, dizendo: “Verei nos registros das doze tribos de Israel se só eu não gerei descendência em Israel”. Procurou e descobriu que todos os justos tinham suscitado descendência em Israel. E lembrou-se do patriarca Abraão, a quem Deus, no último dia, deu um filho, Isaac. E Joaquim ficou muito triste e não se apresentou à sua mulher, mas retirou-se para o deserto, armou ali a sua tenda e jejuou quarenta dias e quarenta noites, dizendo consigo: “Não descerei nem para comer nem para beber até que o Senhor meu Deus olhe para mim; a oração será o meu alimento e a minha bebida”. CAPÍTULO 2 E Ana, sua mulher, chorava com duplo pranto e lamentava-se com dupla lamentação, dizendo: “Chorarei a minha viuvez; chorarei a minha esterilidade”. Estava próximo o grande dia do Senhor, e Judite, sua serva, disse-lhe: “Até quando humilharás a tua alma? Eis que está próximo o grande dia do Senhor, e não te é lícito estar de luto. Toma esta faixa para a cabeça, que me deu a mulher que a fez; não me convém usá-la, porque sou serva, e ela tem aparência régia”. E Ana disse: “Afasta-te de mim; não fiz tais coisas, e o Senhor me humilhou muito. Temo que algum malvado ta tenha dado e que vieste fazer-me participante do teu pecado”. E Judite disse: “Por que te amaldiçoaria eu, se o Senhor fechou o teu seio para não te dar fruto em Israel?” E Ana ficou muito triste, tirou as vestes de luto, lavou a cabeça, vestiu as roupas de noiva e, por volta da hora nona, desceu ao jardim para passear. Viu um loureiro, sentou-se debaixo dele e orou ao Senhor, dizendo: “Deus de nossos pais, abençoa-me e ouve a minha oração, como abençoaste o seio de Sara e lhe deste um filho, Isaac”. CAPÍTULO 3 E, olhando para o céu, viu um ninho de pardais no loureiro e lamentou-se consigo, dizendo: “Ai de mim! Quem me gerou? Que seio me deu à luz? Pois me tornei uma maldição diante dos filhos de Israel; fui insultada e me expulsaram com escárnio do templo do Senhor. Ai de mim! A que sou semelhante? Não sou semelhante às aves do céu, porque até as aves do céu são fecundas diante de ti, Senhor. Ai de mim! A que sou semelhante? Não sou semelhante aos animais da terra, porque até os animais da terra são fecundos diante de ti, Senhor. Ai de mim! A que sou semelhante? Não sou semelhante a estas águas, porque até estas águas são fecundas diante de ti, Senhor. Ai de mim! A que sou semelhante? Não sou semelhante a esta terra, porque até a terra produz os seus frutos a seu tempo e te bendiz, Senhor”. CAPÍTULO 4 E eis que um anjo do Senhor se pôs junto dela, dizendo: “Ana, Ana, o Senhor ouviu a tua oração: conceberás e darás à luz, e da tua descendência se falará em todo o mundo”. E Ana disse: “Pela vida do Senhor meu Deus, se eu gerar menino ou menina, oferecê-lo-ei como dom ao Senhor meu Deus, e o servirá nas coisas santas todos os dias da sua vida”. E eis que vieram dois anjos, dizendo-lhe: “Eis que Joaquim, teu marido, vem chegando com os seus rebanhos”. Pois um anjo do Senhor tinha descido até ele, dizendo: “Joaquim, Joaquim, o Senhor Deus ouviu a tua oração. Desce daqui, porque eis que Ana, tua mulher, conceberá”. E Joaquim desceu e chamou os seus pastores, dizendo: “Trazei-me aqui dez cordeiras sem mancha nem defeito, e serão para o Senhor meu Deus; trazei-me doze bezerros tenros, e serão para os sacerdotes e os anciãos; e cem cabritos para todo o povo”. E eis que Joaquim chegou com os seus rebanhos; Ana estava à porta, viu Joaquim chegando, correu e lançou-se ao seu pescoço, dizendo: “Agora sei que o Senhor Deus me abençoou grandemente; pois eis que a viúva já não é viúva, e eu, a estéril, conceberei”. E Joaquim descansou o primeiro dia em sua casa. CAPÍTULO 5 No dia seguinte, apresentou as suas ofertas, dizendo consigo: “Se o Senhor Deus me for propício, a lâmina da fronte do sacerdote mo mostrará”. E Joaquim apresentou as suas ofertas e observou atentamente a lâmina do sacerdote quando este subiu ao altar do Senhor, e não viu pecado em si. E Joaquim disse: “Agora sei que o Senhor me foi propício e perdoou todos os meus pecados”. E desceu do templo do Senhor justificado e foi para a sua casa. Completaram-se os meses dela, e no nono mês Ana deu à luz. E disse à parteira: “Que dei à luz?” E ela respondeu: “Uma menina”. E Ana disse: “A minha alma foi engrandecida neste dia”. E deitou a menina. Cumpridos os dias, Ana purificou-se, deu o peito à menina e chamou-lhe Maria. CAPÍTULO 6 A menina fortalecia-se dia após dia. Quando completou seis meses, sua mãe a pôs no chão para ver se conseguia ficar de pé; e ela deu sete passos e voltou ao colo da mãe. E esta a tomou nos braços, dizendo: “Pela vida do Senhor meu Deus, não andarás sobre esta terra até que eu te leve ao templo do Senhor”. E fez um santuário no seu quarto e não deixava passar por ela nada de comum ou impuro. Chamou as filhas sem mácula dos hebreus, e elas a entretinham. Quando a menina completou um ano, Joaquim deu um grande banquete e convidou os sacerdotes, os escribas, os anciãos e todo o povo de Israel. E Joaquim levou a menina aos sacerdotes, e eles a abençoaram, dizendo: “Deus de nossos pais, abençoa esta menina e dá-lhe um nome eterno, que seja pronunciado em todas as gerações”. E todo o povo disse: “Assim seja, assim seja. Amém”. E levou-a aos sumos sacerdotes, e eles a abençoaram, dizendo: “Deus altíssimo, olha para esta menina e abençoa-a com a bênção suprema, que não terá fim”. E sua mãe a tomou nos braços, levou-a ao santuário do seu quarto e deu-lhe o peito. E Ana compôs um cântico ao Senhor Deus, dizendo: “Cantarei um cântico ao Senhor meu Deus, porque olhou para mim e tirou de mim a afronta dos meus inimigos; e o Senhor me deu o fruto da sua justiça, único em sua espécie e rico diante dele. Quem anunciará aos filhos de Rúben que Ana amamenta? Ouvi, ouvi, doze tribos de Israel: Ana amamenta!” E deitou-a para descansar no quarto do seu santuário, saiu e serviu os convidados. Terminado o banquete, desceram alegres, glorificando o Deus de Israel. CAPÍTULO 7 Passavam os meses para a menina. Quando ela completou dois anos, Joaquim disse: “Levemo-la ao templo do Senhor, para cumprirmos o voto que fizemos, para que o Senhor não nos reclame e a nossa oferta não seja rejeitada”. E Ana disse: “Esperemos o terceiro ano, para que a menina não sinta falta do pai ou da mãe”. E Joaquim disse: “Esperemos, então”. Quando a menina completou três anos, Joaquim disse: “Chamai as filhas sem mácula dos hebreus; que tome cada uma uma lâmpada e fiquem com as lâmpadas acesas, para que a menina não volte atrás e o seu coração seja cativado pelo templo do Senhor”. E assim fizeram até subirem ao templo do Senhor. E o sacerdote a recebeu, beijou-a e abençoou-a, dizendo: “O Senhor engrandeceu o teu nome em todas as gerações. Em ti, no último dos dias, o Senhor manifestará a sua redenção aos filhos de Israel”. E colocou-a no terceiro degrau do altar, e o Senhor Deus derramou graça sobre ela; e ela dançou com os seus pés, e toda a casa de Israel a amou. CAPÍTULO 8 E seus pais desceram admirados, louvando o Senhor Deus, porque a menina não tinha voltado atrás. E Maria estava no templo do Senhor como uma pomba que ali habitasse, e recebia o alimento da mão de um anjo. Quando completou doze anos, houve um conselho dos sacerdotes, que diziam: “Eis que Maria completou doze anos no templo do Senhor. Que faremos com ela, para que não venha a profanar o santuário do Senhor?” E disseram ao sumo sacerdote: “Tu estás junto ao altar do Senhor; entra e ora por ela; e o que o Senhor te manifestar, isso faremos”. E o sumo sacerdote entrou no Santo dos Santos, levando a veste das doze campainhas, e orou por ela. E eis que um anjo do Senhor se pôs junto dele, dizendo-lhe: “Zacarias, Zacarias, sai e reúne os viúvos do povo; que cada um traga a sua vara, e aquele a quem o Senhor mostrar um sinal, dele será ela esposa”. E os arautos saíram por toda a região da Judeia; soou a trombeta do Senhor, e todos acorreram. CAPÍTULO 9 E José, largando o seu machado, saiu ao encontro deles; e, quando se reuniram, foram ao sumo sacerdote, levando as suas varas. E ele, recebendo as varas de todos, entrou no templo e orou; terminada a oração, tomou as varas, saiu e devolveu-as a eles; mas não havia sinal nelas. José recebeu a sua vara por último, e eis que uma pomba saiu da vara e pousou sobre a cabeça de José. E o sacerdote disse a José: “Tu foste escolhido pela sorte para receber sob a tua guarda a virgem do Senhor”. Mas José recusou, dizendo: “Tenho filhos, sou velho, e ela é uma menina. Temo tornar-me motivo de riso para os filhos de Israel”. E o sacerdote disse a José: “Teme o Senhor teu Deus e lembra-te do que o Senhor fez a Datã, Abirão e Coré: como a terra se abriu e foram tragados por causa da sua rebeldia. E agora teme, José, que aconteçam as mesmas coisas em tua casa”. E José teve medo e recebeu-a sob a sua guarda. E José disse a Maria: “Eis que te recebi do templo do Senhor; agora te deixo em minha casa e vou fazer as minhas construções, e voltarei para junto de ti. O Senhor te guardará”. CAPÍTULO 10 E houve um conselho dos sacerdotes, que diziam: “Façamos um véu para o templo do Senhor”. E o sacerdote disse: “Chamai-me as virgens sem mácula da família de Davi”. E os servidores foram, procuraram e encontraram sete virgens. E o sacerdote lembrou-se da menina Maria, que era da família de Davi e sem mácula diante de Deus. E os servidores foram e a trouxeram. E levaram-nas ao templo do Senhor. E o sacerdote disse: “Tirai-me à sorte quem fiará o ouro, o branco, o linho fino, a seda, o azul, o escarlate e a verdadeira púrpura”. E a verdadeira púrpura e o escarlate couberam por sorte a Maria; ela os tomou e foi para a sua casa. Naquele tempo, Zacarias ficou mudo, e Samuel ocupou o seu lugar até o tempo em que Zacarias voltou a falar. E Maria tomou o escarlate e o fiou. CAPÍTULO 11 E tomou o cântaro e saiu para enchê-lo de água. E eis que uma voz dizia: “Salve, cheia de graça, o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres!” E ela olhou ao redor, à direita e à esquerda, para ver de onde vinha a voz. E, tremendo, foi para a sua casa, pousou o cântaro, tomou a púrpura, sentou-se e começou a fiá-la. E eis que um anjo do Senhor se pôs diante dela, dizendo: “Não temas, Maria, porque achaste graça diante do Senhor de todas as coisas, e conceberás pela sua palavra”. E ela, ouvindo isso, refletiu consigo, dizendo: “Conceberei eu do Senhor, o Deus vivo? E darei à luz como dá à luz toda mulher?” E o anjo do Senhor disse: “Não assim, Maria; pois o poder do Senhor te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo que nascer de ti será chamado Filho do Altíssimo. E lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”. E Maria disse: “Eis a serva do Senhor diante dele: faça-se em mim segundo a tua palavra”. CAPÍTULO 12 E fez a púrpura e o escarlate e levou-os ao sacerdote. E o sacerdote a abençoou, dizendo: “Maria, o Senhor Deus engrandeceu o teu nome, e serás bendita em todas as gerações da terra”. E Maria, com grande alegria, foi à casa de Isabel, sua parenta, e bateu à porta. Quando Isabel a ouviu, largou o escarlate, correu à porta e abriu; e, vendo Maria, abençoou-a e disse: “Donde me vem que a mãe do meu Senhor venha a mim? Pois eis que o que está em mim saltou e te bendisse”. Mas Maria tinha esquecido os mistérios de que lhe falara o arcanjo Gabriel; olhou para o céu e disse: “Quem sou eu, Senhor, para que todas as gerações da terra me bendigam?” E ficou três meses com Isabel; e dia após dia o seu ventre crescia. E Maria, tendo medo, foi para a sua casa e escondeu-se dos filhos de Israel. Tinha dezesseis anos quando aconteceram estes mistérios. CAPÍTULO 13 Estava ela no sexto mês, e eis que José voltou das suas construções e, entrando em casa, descobriu que ela estava grávida. E bateu no rosto, lançou-se por terra sobre o saco e chorou amargamente, dizendo: “Com que rosto olharei para o Senhor meu Deus? Que oração farei por esta jovem? Pois a recebi virgem do templo do Senhor e não a guardei. Quem me armou esta cilada? Quem fez este mal em minha casa e profanou a virgem? Não se repetiu em mim a história de Adão? Pois, assim como Adão estava na hora do seu louvor, e veio a serpente, encontrou Eva sozinha e a enganou completamente, assim também aconteceu comigo”. E José levantou-se de cima do saco, chamou Maria e disse-lhe: “Tu, que foste cuidada por Deus, por que fizeste isto e te esqueceste do Senhor teu Deus? Por que rebaixaste a tua alma, tu que foste criada no Santo dos Santos e recebias o alimento da mão de um anjo?” E ela chorou amargamente, dizendo: “Sou inocente e não conheço homem”. E José lhe disse: “Donde vem, então, o que está em teu ventre?” E ela disse: “Pela vida do Senhor meu Deus, não sei donde me vem”. CAPÍTULO 14 E José teve muito medo, afastou-se dela e ponderou o que faria a seu respeito. E José disse: “Se eu esconder o pecado dela, estarei lutando contra a lei do Senhor; e, se a denunciar aos filhos de Israel, temo que o que está nela venha de um anjo, e eu seja achado entregando sangue inocente à sentença de morte. Que farei, então, com ela? Vou despedi-la em segredo”. E veio a noite sobre ele; e eis que um anjo do Senhor lhe aparece em sonho, dizendo: “Não temas por esta jovem, pois o que está nela é do Espírito Santo; ela dará à luz um Filho, e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”. E José levantou-se do sono, glorificou o Deus de Israel, que lhe tinha concedido esta graça, e guardou-a consigo. CAPÍTULO 15 E Anás, o escriba, foi ter com ele e disse-lhe: “Por que não compareceste à nossa assembleia?” E José lhe disse: “Porque estava cansado da viagem e descansei o primeiro dia”. E Anás voltou-se e viu que Maria estava grávida. E correu ao sacerdote e disse-lhe: “José, por quem tu respondeste, cometeu um crime grave”. E o sacerdote disse: “Como assim?” E ele disse: “Profanou a virgem que recebeu do templo do Senhor, casou-se com ela às escondidas e não o revelou aos filhos de Israel”. E o sacerdote respondeu: “José fez isso?” Então disse Anás, o escriba: “Manda os servidores, e encontrarás a virgem grávida”. E os servidores foram e encontraram as coisas como ele dissera; e levaram-na, junto com José, ao tribunal. E o sacerdote disse: “Maria, por que fizeste isto? Por que rebaixaste a tua alma e te esqueceste do Senhor teu Deus? Tu, que foste criada no Santo dos Santos, que recebias o alimento da mão de um anjo, que ouviste os hinos e dançaste diante dele, por que fizeste isto?” E ela chorou amargamente, dizendo: “Pela vida do Senhor meu Deus, sou pura diante dele e não conheço homem”. E o sacerdote disse a José: “Por que fizeste isto?” E José disse: “Pela vida do Senhor, sou puro em relação a ela”. E o sacerdote disse: “Não dês falso testemunho, mas fala a verdade. Casaste-te com ela às escondidas, não o revelaste aos filhos de Israel e não inclinaste a cabeça sob a mão poderosa, para que a tua descendência fosse abençoada”. E José calou-se. CAPÍTULO 16 E o sacerdote disse: “Devolve a virgem que recebeste do templo do Senhor”. E José desfez-se em lágrimas. E o sacerdote disse: “Dar-vos-ei a beber da água da prova do Senhor, e ele manifestará os vossos pecados diante dos vossos olhos”. E o sacerdote tomou a água, deu-a a beber a José e mandou-o para a região montanhosa; e ele voltou ileso. E deu-a a beber também a Maria e mandou-a para a região montanhosa; e ela voltou ilesa. E todo o povo se admirou de que não aparecesse pecado neles. E o sacerdote disse: “Se o Senhor Deus não manifestou os vossos pecados, também eu não vos julgo”. E despediu-os. E José tomou Maria e foi para a sua casa, alegre e glorificando o Deus de Israel. CAPÍTULO 17 E houve uma ordem do imperador Augusto para que todos os de Belém da Judeia fossem recenseados. E José disse: “Recensearei os meus filhos; mas que farei com esta jovem? Como a recensearei? Como minha mulher? Tenho vergonha. Como minha filha? Mas todos os filhos de Israel sabem que não é minha filha. O próprio dia do Senhor fará como o Senhor quiser”. E selou o jumento e a fez montar; seu filho o conduzia, e José ia atrás. Quando estavam a três milhas, José voltou-se e a viu triste; e disse consigo: “Talvez o que está nela a faça sofrer”. E de novo José voltou-se e a viu sorrindo. E disse-lhe: “Maria, como é que vejo no teu rosto ora riso, ora tristeza?” E Maria disse a José: “É que vejo com os meus olhos dois povos: um que chora e se lamenta, e outro que se alegra e exulta”. E chegaram ao meio do caminho, e Maria lhe disse: “Desce-me do jumento, porque o que está em mim insiste em sair”. E ele a desceu do jumento e disse-lhe: “Para onde te levarei, para esconder o teu pudor? Pois o lugar é deserto”. CAPÍTULO 18 E encontrou ali uma gruta e levou-a para dentro; e, deixando junto dela os seus dois filhos, saiu à procura de uma parteira na região de Belém. E eu, José, caminhava e não caminhava; e olhei para o céu e vi o céu atônito; e olhei para o alto do firmamento e o vi parado, e as aves do céu imóveis. E olhei para a terra e vi uma gamela posta e trabalhadores reclinados, com as mãos na gamela. E os que mastigavam não mastigavam, e os que levantavam [a comida] não a erguiam, e os que a levavam à boca não a levavam; mas os rostos de todos estavam voltados para o alto. E vi ovelhas sendo tocadas, e as ovelhas estavam paradas; e o pastor levantou a mão para batê-las, e a sua mão ficou erguida. E olhei para a correnteza do rio e vi as bocas dos cabritos postas sobre a água, sem beber; e todas as coisas, num instante, foram tiradas do seu curso. CAPÍTULO 19 E vi uma mulher que descia da região montanhosa, e ela me disse: “Homem, para onde vais?” E eu disse: “Procuro uma parteira hebreia”. E ela me respondeu: “És de Israel?” E eu lhe disse: “Sim”. E ela disse: “E quem é que está dando à luz na gruta?” E eu disse: “Uma mulher que me foi prometida”. E ela me disse: “Não é tua esposa?” E eu lhe disse: “É Maria, que foi criada no templo do Senhor, e eu a recebi por sorte como esposa. Mas não é minha esposa; concebeu do Espírito Santo”. E a parteira lhe disse: “Isso é verdade?” E José lhe disse: “Vem e vê”. E a parteira foi com ele. E pararam no lugar da gruta, e eis que uma nuvem luminosa cobria a gruta com a sua sombra. E a parteira disse: “A minha alma foi engrandecida neste dia, porque os meus olhos viram coisas extraordinárias: nasceu a salvação para Israel”. E logo a nuvem se retirou da gruta, e uma grande luz brilhou dentro da gruta, de modo que os olhos não a podiam suportar. E, pouco a pouco, aquela luz foi diminuindo, até que apareceu o menino, que veio e tomou o peito de sua mãe, Maria. E a parteira exclamou: “Grande é para mim este dia, porque vi esta coisa extraordinária”. E a parteira saiu da gruta, e Salomé foi ao seu encontro. E ela lhe disse: “Salomé, Salomé, tenho uma coisa extraordinária para te contar: uma virgem deu à luz, coisa que a natureza dela não admite”. Então disse Salomé: “Pela vida do Senhor meu Deus, se eu não puser o meu dedo e não examinar o seu estado, não crerei que uma virgem deu à luz”. CAPÍTULO 20 E a parteira entrou e disse a Maria: “Prepara-te, pois não é pequena a contenda que surgiu a teu respeito”. E Salomé pôs o seu dedo e deu um grito, dizendo: “Ai de mim, pela minha iniquidade e pela minha incredulidade, porque tentei o Deus vivo; e eis que a minha mão cai, como queimada pelo fogo”. E dobrou os joelhos diante do Senhor, dizendo: “Deus de meus pais, lembra-te de que sou descendente de Abraão, Isaac e Jacó; não me exponhas à vergonha diante dos filhos de Israel, mas devolve-me aos pobres; pois tu sabes, Senhor, que em teu nome prestava os meus serviços e de tua mão recebia a minha recompensa”. E eis que um anjo do Senhor se pôs junto dela, dizendo-lhe: “Salomé, Salomé, o Senhor te ouviu. Aproxima a tua mão do menino e toma-o nos braços, e terás salvação e alegria”. E Salomé foi e tomou-o nos braços, dizendo: “Eu o adorarei, porque nasceu um grande Rei para Israel”. E eis que Salomé ficou curada imediatamente e saiu da gruta justificada. E eis que uma voz dizia: “Salomé, Salomé, não contes as coisas extraordinárias que viste, até que o menino tenha entrado em Jerusalém”. CAPÍTULO 21 E eis que José estava pronto para partir para a Judeia. E houve grande agitação em Belém da Judeia, porque chegaram magos, dizendo: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Pois vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. Quando Herodes ouviu isso, ficou muito perturbado e enviou servidores aos magos. E mandou chamar os sacerdotes e os interrogou, dizendo: “Que está escrito a respeito do Cristo? Onde deve nascer?” E eles disseram: “Em Belém da Judeia, porque assim está escrito”. E despediu-os. E interrogou os magos, dizendo-lhes: “Que sinal vistes a respeito do rei que nasceu?” E os magos disseram: “Vimos uma estrela muito grande, que brilhava entre estas estrelas e ofuscava a sua luz, de modo que as estrelas não apareciam; e assim soubemos que nasceu um rei para Israel, e viemos adorá-lo”. E Herodes disse: “Ide e procurai-o; e, se o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”. E os magos saíram. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até chegarem à gruta, e parou sobre o alto da gruta. E os magos viram o menino com sua mãe, Maria, e tiraram de seus alforjes ouro, incenso e mirra. E, avisados pelo anjo para não irem à Judeia, voltaram para a sua terra por outro caminho. CAPÍTULO 22 E, quando Herodes percebeu que tinha sido enganado pelos magos, cheio de ira, enviou assassinos, dizendo-lhes: “Matai os meninos de dois anos para baixo”. E Maria, ouvindo que os meninos estavam sendo mortos, teve medo, tomou o menino, envolveu-o em faixas e o pôs numa manjedoura de bois. E Isabel, ouvindo que procuravam João, tomou-o e subiu à região montanhosa, e olhava ao redor onde escondê-lo. E não havia esconderijo. E Isabel, gemendo em alta voz, diz: “Monte de Deus, recebe a mãe com o filho”. E imediatamente o monte se fendeu e a recebeu. E uma luz brilhava ao redor deles, porque um anjo do Senhor estava com eles e os guardava. CAPÍTULO 23 E Herodes procurava João e enviou servidores a Zacarias, dizendo: “Onde escondeste o teu filho?” E ele lhes respondeu: “Sou servo de Deus nas coisas santas e estou sempre no templo do Senhor; não sei onde está o meu filho”. E os servidores foram e relataram tudo isso a Herodes. E Herodes se enfureceu e disse: “O filho dele há de reinar sobre Israel”. E mandou dizer-lhe de novo: “Dize a verdade: onde está o teu filho? Pois sabes que a tua vida está em minhas mãos”. E Zacarias disse: “Sou mártir de Deus, se derramares o meu sangue; pois o Senhor receberá o meu espírito, porque derramas sangue inocente no vestíbulo do templo do Senhor”. E Zacarias foi assassinado ao romper do dia. E os filhos de Israel não sabiam que ele tinha sido assassinado. CAPÍTULO 24 Mas, na hora da saudação, os sacerdotes foram, e Zacarias não lhes saiu ao encontro com a bênção, como de costume. E os sacerdotes ficaram esperando Zacarias, para saudá-lo na oração e glorificar o Altíssimo. Como ele demorasse, todos tiveram medo. Mas um deles se atreveu a entrar e viu sangue coagulado junto ao altar; e ouviu uma voz que dizia: “Zacarias foi assassinado, e o seu sangue não será lavado até que venha o seu vingador”. Ao ouvir essa palavra, teve medo, saiu e contou-o aos sacerdotes. E eles se atreveram a entrar e viram o que tinha acontecido; e os lambris do templo soltaram um lamento, e eles rasgaram as vestes de alto a baixo. E não encontraram o seu corpo, mas encontraram o seu sangue transformado em pedra. E tiveram medo, saíram e anunciaram ao povo que Zacarias tinha sido assassinado. E todas as tribos do povo ouviram, choraram e lamentaram-no três dias e três noites. E, passados os três dias, os sacerdotes deliberaram sobre quem poriam no seu lugar; e a sorte caiu sobre Simeão. Pois era ele quem tinha sido avisado pelo Espírito Santo de que não veria a morte antes de ver o Cristo na carne. CAPÍTULO 25 E eu, Tiago, que escrevi esta história em Jerusalém, tendo surgido um tumulto quando Herodes morreu, retirei-me para o deserto até que cessasse o tumulto em Jerusalém, glorificando o Senhor Deus, que me deu o dom e a sabedoria para escrever esta história. E a graça estará com os que temem a nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém. Tradução: Didasteia, a partir de Ante-Nicene Fathers, vol. 8 (tradução inglesa de Alexander Walker). Licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt-br): pode copiar, distribuir e adaptar, desde que cite o Didasteia com o link desta obra: https://didasteia.com.br/textos/II/evangelho-da-infancia-de-tiago Fonte: Didasteia — https://didasteia.com.br/textos/II/evangelho-da-infancia-de-tiago