FONTE Q Didasteia Estudo do Didasteia. A Fonte Q é hipotética: estudiosos modernos a reconstroem a partir de Mateus e Lucas, não há manuscrito antigo que a preserve, e ela não pertence ao cânon das Sagradas Escrituras. A HIPÓTESE A Fonte Q é um documento hipotético, hoje perdido, que explicaria os cerca de 200 a 250 versículos comuns a Mateus e Lucas e ausentes de Marcos. Nenhum manuscrito de Q chegou até nós, e nenhum autor antigo a menciona de forma inequívoca: ela é deduzida da comparação dos três primeiros Evangelhos. O problema sinótico. Mateus, Marcos e Lucas coincidem em grande parte na ordem dos episódios e, muitas vezes, palavra por palavra no grego. A crítica distingue três tipos de material: Tripla tradição: o que os três têm em comum, quase todo Marcos. Dupla tradição: o que só Mateus e Lucas têm em comum, sobretudo ditos de Jesus. É o material atribuído a Q. Material próprio: o que só Mateus tem (convencionalmente chamado M) e o que só Lucas tem (L). A teoria das duas fontes. Segundo ela, Marcos é o Evangelho mais antigo, e Mateus e Lucas o usaram independentemente um do outro. Para o material que não vem de Marcos, os dois teriam usado uma segunda fonte escrita, a coleção de ditos chamada Q. A hipótese foi formulada por Christian Hermann Weisse em 1838 e ganhou a crítica alemã com Heinrich Julius Holtzmann em 1863. B. H. Streeter deu-lhe a forma clássica em língua inglesa (1924), acrescentando as fontes M e L. Antes deles, Friedrich Schleiermacher (1832) havia lido os lógia que, segundo Papias, Mateus compôs “em língua hebraica” como uma coleção de ditos, e não como um Evangelho narrativo (Eusébio, História eclesiástica III, 39, 16). Daí o primeiro nome da fonte, “Logia”. A sigla Q, inicial do alemão Quelle (“fonte”), firmou-se com Paul Wernle, Die synoptische Frage (1899). F. Neirynck reconstituiu a história da sigla em artigo de 1978. OS ARGUMENTOS A hipótese repousa sobre seis observações. Nenhuma é decisiva sozinha; o peso está no conjunto. 1. Concordância verbal. Em várias passagens da dupla tradição, Mateus e Lucas coincidem quase palavra por palavra no grego. Na pregação de João Batista (Mt 3,7-10; Lc 3,7-9), das cerca de sessenta palavras só três ou quatro diferem; no dito dos dois senhores (Mt 6,24; Lc 16,13), Lucas acrescenta uma única palavra. Uma coincidência dessa ordem pede uma fonte escrita, e não só tradição oral. 2. Ordem comum. Mateus redistribui os ditos em grandes discursos, e Lucas os concentra sobretudo em dois blocos (Lc 6,20-8,3 e 9,51-18,14). Mesmo assim, conservam sequências iguais: Batista, tentações, sermão, centurião, João e Jesus (V. Taylor, 1959). 3. Inserção independente. Fora do início (Batista e tentações), Mateus e Lucas quase nunca encaixam o mesmo dito no mesmo ponto da narrativa de Marcos. Se um copiasse o outro, seria de esperar mais coincidências de lugar (Streeter, 1924). 4. Primitividade alternada. Ora Mateus, ora Lucas conserva a forma que parece mais antiga do mesmo dito. Lucas tem “bem-aventurados os pobres” (6,20), Mateus “os pobres em espírito” (5,3); Lucas tem o Pai-Nosso breve, Mateus a forma litúrgica mais longa. Isso se explica melhor por uma fonte comum do que pelo uso de um pelo outro. 5. Dubletos. Alguns ditos aparecem duas vezes no mesmo Evangelho: uma vez no contexto de Marcos, outra num bloco de Q. Em Lucas, a lâmpada (8,16 e 11,33), o carregar a cruz (9,23 e 14,27) e o perder a vida para salvá-la (9,24 e 17,33). 6. Gênero. Coleções de ditos sem narrativa existiam no ambiente judaico e cristão: Provérbios, a Mishná Abot e, sobretudo, o Evangelho de Tomé, conhecido pelo códice copta de Nag Hammadi (NHC II,2) e pelos fragmentos gregos de Oxirrinco (P.Oxy. 1, 654 e 655). James M. Robinson (1964) situou Q nesse gênero dos “ditos dos sábios”. Para a extensão e a data, a maioria dos estudiosos situa Q entre os anos 40 e 70, na Galileia ou na Síria. Paul Hoffmann, um dos editores da edição crítica, data a redação final por volta de 70, pela alusão à casa abandonada de Q 13,35 (Hoffmann, Die Logienquelle Q). O TEXTO RECONSTRUÍDO Por convenção, Q é citada pela numeração de Lucas: “Q 3,7-9” designa o dito de Lc 3,7-9 e o seu paralelo em Mateus. Lucas é tomado como referência porque se considera que conserva melhor a ordem da fonte. A lista abaixo é a de Paul Hoffmann, um dos editores da edição crítica de Q (Robinson, Hoffmann e Kloppenborg, 2000); o ponto de interrogação marca atribuições incertas. Bloco | Passagens (numeração de Lucas) Pregação de João Batista | 3,7-9.16b-17 Batismo e tentações de Jesus | 3,21-22; 4,1-13 Primeiro discurso de Jesus | 6,20b-23.27-38.41-49 A fé de um pagão (o centurião) | 7,1-10 João e Jesus | 7,18-28; (16,16?); 7,31-35 Instruções para a missão | 9,57-60; 10,2-16.21-24 Ensino sobre a oração | 11,2-4.9-13 Os exorcismos de Jesus | 11,14-26 Contra “esta geração” | 11,29-35.39-44.46.52.47-51 Exortações aos discípulos | 12,2-12.22-34.39-46.51-59 O juízo sobre Israel | 13,18-29.34-35; 14,16-24 Exigências do discipulado | 14,26-27; 17,33; 14,34-35; 15,4-7; 16,13.(16?).17-18; 17,1-6 Perspectiva escatológica | 17,23-37; 19,12-26; 22,28.30 Fonte: P. Hoffmann, Die Logienquelle Q. Q quase não narra. Tem o centurião e as tentações, mas nenhum relato da Paixão nem da ressurreição. Seis passagens Tradução nossa do grego (Nestle-Aland, 28.ª ed.). O texto é o de Lucas; entre colchetes, as diferenças de Mateus. As reconstruções do grego de Q, que escolhem palavra por palavra entre os dois, não são reproduzidas aqui. 1. A pregação de João (Q 3,7-9; Lc 3,7-9; Mt 3,7-10). O caso clássico de concordância verbal. Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, pois, frutos dignos [Mt: fruto digno] da conversão, e não comeceis [Mt: não penseis] a dizer a vós mesmos: “Temos Abraão por pai”. Pois eu vos digo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão. Já [Lc acrescenta: também] o machado está posto à raiz das árvores: toda árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo. 2. Os dois senhores (Q 16,13; Lc 16,13; Mt 6,24). A única diferença é uma palavra. Nenhum [Lc acrescenta: servo] pode servir a dois senhores: ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro (mamōnás). 3. O Pai-Nosso (Q 11,2b-4; Lc 11,2-4; Mt 6,9-13). Lucas conserva a forma breve; Mateus, a forma que a Igreja rezava, a mesma da Didaquê 8,2. Lucas 11,2-4 | Mateus 6,9-13 Pai, | Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; | santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; | venha o teu Reino; — | seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; dá-nos cada dia o nosso pão de cada dia; | o nosso pão de cada dia dá-nos hoje; perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo aquele que nos deve; | perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos introduzas em tentação. | e não nos introduzas em tentação, mas livra-nos do mal. “De cada dia” traduz epioúsios, palavra de sentido discutido desde Orígenes. Lucas fala de “pecados”, mas conserva “todo aquele que nos deve”: sinal de que a fonte comum falava de dívidas, como Mateus. 4. A resposta a João (Q 7,22-23; Lc 7,22-23; Mt 11,4-6). Responde à pergunta “És tu aquele que há de vir?” (Q 7,19). Ide anunciar a João o que vistes e ouvistes [Mt: o que ouvis e vedes]: cegos recuperam a vista, coxos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos são ressuscitados, aos pobres é anunciada a Boa-Nova. E bem-aventurado aquele que não se escandalizar por causa de mim. A lista ecoa Isaías (26,19; 29,18-19; 35,5-6; 61,1). Um texto de Qumrã, o Apocalipse messiânico (4Q521, fragmento 2, coluna ii), atribui ao tempo do “seu Messias” a cura dos feridos, a ressurreição dos mortos e o anúncio da boa-nova aos pobres (É. Puech, 1998; J. J. Collins, 1995). A resposta de Jesus em Q é, portanto, messiânica. 5. O Pai e o Filho (Q 10,21-22; Lc 10,21-22; Mt 11,25-27). O texto de cristologia mais alta da dupla tradição. Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho [Mt: ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho] e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 6. O lamento sobre Jerusalém (Q 13,34-35; Lc 13,34-35; Mt 23,37-39). Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como a galinha reúne a sua ninhada [Mt: os seus pintinhos] debaixo das asas, e não quisestes! Eis que a vossa casa vos é deixada [Mt acrescenta: deserta]. Eu vos digo: não me vereis [Mt acrescenta: de agora em diante] até que digais: “Bendito o que vem em nome do Senhor”. O DEBATE A teoria das duas fontes continua majoritária nos comentários e manuais, mas é uma hipótese de trabalho, não um fato. Três alternativas explicam a dupla tradição sem Q. Hipótese | Ordem dos Evangelhos | Como explica a dupla tradição | Principais defensores Duas fontes | Marcos; depois Mateus e Lucas, independentes | Mateus e Lucas usaram Q | Weisse (1838), Holtzmann (1863), Streeter (1924); hoje a maioria Farrer | Marcos; Mateus; Lucas | Lucas leu Mateus | A. Farrer (1955), M. Goodacre (2002) Dois Evangelhos (Griesbach) | Mateus; Lucas; Marcos | Lucas leu Mateus; Marcos resumiu os dois | J. J. Griesbach (1789), W. R. Farmer (1964), B. Orchard, OSB Agostiniana | Mateus; Marcos; Lucas | Lucas leu Mateus e Marcos | a ordem é a de Agostinho (A concordância dos evangelistas I, 2, 4); hoje B. C. Butler, OSB (1951), J. Wenham (1991) A objeção de Farrer e Goodacre. Austin Farrer, em “On Dispensing with Q” (1955), propôs que Lucas conheceu Mateus. Mark Goodacre retomou a tese em The Case Against Q (2002), com três argumentos principais: Concordâncias menores. Em passagens de Marcos, Mateus e Lucas às vezes concordam entre si contra Marcos. Na zombaria diante do Sinédrio, ambos têm “Quem é que te bateu?” (Mt 26,68; Lc 22,64), ausente de Mc 14,65. F. Neirynck catalogou essas concordâncias (1974). Fadiga editorial. Quando Lucas segue Mateus num episódio, às vezes deixa escapar um detalhe que só faz sentido na versão de Mateus, sinal de dependência (Goodacre, 1998). Economia. Uma explicação sem documento perdido é preferível, se der conta dos dados. Os defensores de Q respondem que Lucas teria desmontado sem motivo o Sermão da Montanha e ignorado os acréscimos de Mateus a Marcos, como a confissão de Pedro em Mt 16,17-19 (J. A. Fitzmyer, 1970). O debate segue aberto; a hipótese de Farrer ganhou terreno sobretudo no Reino Unido. Papias e o Mateus hebraico. Papias diz que “Mateus ordenou os lógia em língua hebraica, e cada um os interpretou como podia” (Eusébio, História eclesiástica III, 39, 16); Ireneu repete a notícia (Contra as heresias III, 1, 1). A leitura de Schleiermacher, que via aí uma coleção de ditos, foi o berço da hipótese de Q. Hoje a maioria entende que Papias fala do próprio Evangelho de Mateus, e não de Q; a relação entre esse Mateus semita e o Mateus grego continua discutida. Camadas e “comunidade de Q”. John S. Kloppenborg (1987) dividiu Q em três camadas: uma sapiencial (Q1), uma de juízo contra “esta geração” (Q2) e acréscimos tardios, como as tentações (Q3). Burton Mack (The Lost Gospel, 1993) foi além: a camada mais antiga revelaria um sábio de tipo cínico, sem messianismo nem ressurreição, venerado por uma “comunidade de Q”. Essas reconstruções empilham hipóteses sobre uma hipótese. Christopher Tuckett (1996) e Dale Allison (1997) mostraram que os ditos de sabedoria e os de juízo não se separam com essa nitidez. Os próprios textos de Q incluem o Filho do Homem que virá, a resposta messiânica a João (Q 7,22) e a relação única entre o Pai e o Filho (Q 10,22). A ausência de um relato da Paixão é um argumento do silêncio: o gênero “coleção de ditos” não narra, e Q pressupõe a rejeição e a morte dos enviados (Q 11,49-51; 13,34-35; 14,27). Q E A FÉ DA IGREJA A Igreja não se pronuncia sobre a existência de Q, e a hipótese, em si, não contradiz a fé. O próprio Lucas diz que “muitos empreenderam compor uma narração” antes dele (Lc 1,1), e o Concílio Vaticano II pressupõe fontes escritas anteriores aos Evangelhos. O que a Igreja ensina. A Dei Verbum afirma “sem hesitação” a historicidade dos quatro Evangelhos. Na mesma passagem descreve o trabalho dos evangelistas: “Os autores sagrados, porém, escreveram os quatro Evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por palavra ou por escrito” (Dei Verbum, 19). O texto retoma a instrução Sancta Mater Ecclesia da Pontifícia Comissão Bíblica (21 de abril de 1964; AAS 56, 712-718). Ela distingue três etapas: o que Jesus fez e ensinou; a pregação dos Apóstolos depois da Páscoa; e a redação dos Evangelhos, em que os autores selecionaram, sintetizaram e explicaram o material recebido (texto e comentário em J. A. Fitzmyer). Q, se existiu, pertence à segunda etapa. Os decretos de 1912. Em 26 de junho de 1912, a Pontifícia Comissão Bíblica, então órgão de vigilância doutrinal, declarou que os exegetas não podiam defender livremente a chamada teoria das duas fontes. Em 1955, o secretário e o subsecretário da Comissão, A. Miller e A. Kleinhans, esclareceram que os estudiosos têm plena liberdade nos decretos que não tocam a fé e os costumes. Em 2003, o cardeal Joseph Ratzinger, presidente da Comissão, reconheceu que aquelas decisões haviam entrado demais em questões meramente históricas e alargado em excesso o campo das certezas que a fé pode garantir (Relação entre Magistério e exegetas). Os exegetas católicos. Joseph A. Fitzmyer, SJ, Raymond E. Brown, SS, e John P. Meier adotam as duas fontes como a melhor hipótese de trabalho. Dom B. C. Butler, OSB, defendeu a prioridade de Mateus, e Dom Bernard Orchard, OSB, a hipótese de Griesbach. As duas posições são legítimas para um católico. O que a hipótese não autoriza. A inspiração e a canonicidade dizem respeito aos livros que a Igreja recebeu (Dei Verbum, 11), e não a fontes reconstruídas. Um texto de Q é uma reconstrução acadêmica, não Escritura. As leituras que usam Q para opor um Jesus “sábio” ao Cristo pascal dos Evangelhos vão além dos dados: o material atribuído a Q já fala do Filho, do Messias que há de vir e do juízo, e convive na Igreja primitiva com o querigma da morte e ressurreição (1Cor 15,3-5). BIBLIOGRAFIA Fontes antigas e documentos da Igreja Novum Testamentum Graece, Nestle-Aland, 28.ª ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012. Eusébio de Cesareia, História eclesiástica III, 39 (fragmentos de Papias). Ireneu de Lyon, Contra as heresias III, 1, 1. 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Licença CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt-br): pode copiar, distribuir e adaptar, desde que cite o Didasteia com o link desta obra: https://didasteia.com.br/textos/I/fonte-q Fonte: Didasteia — https://didasteia.com.br/textos/I/fonte-q