{
 "_leia": "Credo comentado (/credo). Tradução do Didasteia (CC BY 4.0) do texto grego aprovado no Concílio de Constantinopla (381). Cada artigo: 'titulo', 'texto' (português), 'grego', 'comentario' (parágrafos), 'heresias' (ids de data/heresias.json), 'refs' (passagens bíblicas, no formato do site: 'Jo 1,14'), 'busca' (expressão regular, sem acentos e em minúsculas, para achar testemunhos nas obras do acervo). 'filioque' entra depois do artigo do Espírito Santo.",
 "intro": "O Credo que as Igrejas cristãs rezam até hoje foi proclamado no Concílio de Constantinopla, em 381, que ampliou o Credo do Concílio de Niceia (325); por isso se chama Símbolo niceno-constantinopolitano. Cada frase guarda a memória de uma pergunta que a Igreja precisou responder. Abaixo, o texto frase por frase: o que afirma, a heresia que respondia e o testemunho das Escrituras e dos Padres nos textos do acervo.",
 "nota_traducao": "Tradução do Didasteia a partir do texto grego aprovado em 381, tal como foi lido no Concílio de Calcedônia, em 451. O original diz “cremos”, no plural: é a fé da Igreja reunida. Licença CC BY 4.0.",
 "artigos": [
  {
   "titulo": "Um só Deus, Pai e criador",
   "texto": "Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.",
   "grego": "Πιστεύομεν εἰς ἕνα Θεὸν Πατέρα παντοκράτορα, ποιητὴν οὐρανοῦ καὶ γῆς, ὁρατῶν τε πάντων καὶ ἀοράτων.",
   "comentario": [
    "A primeira palavra é a da fé de Israel: “Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4). Num mundo cheio de deuses, os cristãos confessavam um só Deus, e por isso os pagãos chegavam a chamá-los de ateus.",
    "Dizer que Ele é criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, respondia aos que separavam o Deus bom, Pai de Jesus Cristo, de um deus inferior que teria feito a matéria: Marcião, os gnósticos e, mais tarde, os maniqueus. Para a Igreja, o mesmo Deus é Pai de Jesus Cristo e criador do mundo, e tudo o que Ele fez é bom (Gn 1,31)."
   ],
   "heresias": ["marcionismo", "gnosticismo", "maniqueismo"],
   "refs": ["Dt 6,4", "Gn 1,1", "1Cor 8,6", "Cl 1,16"],
   "busca": "um so deus|pai todo-poderoso|deus todo-poderoso|criador do ceu e da terra|criador de todas as coisas|visiveis e invisiveis|fez o ceu e a terra"
  },
  {
   "titulo": "O Filho eterno",
   "texto": "E em um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos:",
   "grego": "Καὶ εἰς ἕνα Κύριον Ἰησοῦν Χριστόν, τὸν Υἱὸν τοῦ Θεοῦ τὸν μονογενῆ, τὸν ἐκ τοῦ Πατρὸς γεννηθέντα πρὸ πάντων τῶν αἰώνων,",
   "comentario": [
    "Os primeiros cristãos resumiam a fé numa frase: “Jesus é Senhor” (1Cor 12,3; Rm 10,9). Senhor, em grego Kýrios, é o nome que a Bíblia grega dá ao próprio Deus.",
    "Ele é Filho de um modo único — unigênito — e o é desde sempre: gerado “antes de todos os séculos”, e não adotado num momento da história. A frase exclui o adocionismo, para o qual Jesus seria um homem adotado como Filho no batismo, e prepara a resposta a Ário, que dizia: “houve um tempo em que o Filho não existia”."
   ],
   "heresias": ["adocionismo", "arianismo"],
   "refs": ["1Cor 8,6", "Jo 1,14", "Jo 1,18", "Jo 3,16", "Cl 1,15"],
   "busca": "filho unigenito|unigenito do pai|unigenito de deus|gerado do pai|gerado pelo pai|antes de todos os seculos|antes dos seculos|primogenito de toda a criacao|um so senhor"
  },
  {
   "titulo": "Consubstancial ao Pai",
   "texto": "luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por ele todas as coisas foram feitas.",
   "grego": "φῶς ἐκ φωτός, Θεὸν ἀληθινὸν ἐκ Θεοῦ ἀληθινοῦ, γεννηθέντα οὐ ποιηθέντα, ὁμοούσιον τῷ Πατρί, δι᾽ οὗ τὰ πάντα ἐγένετο·",
   "comentario": [
    "Este é o coração do Concílio de Niceia. Ário aceitava chamar o Filho de deus, mas como a primeira e a mais alta das criaturas. O concílio respondeu com imagens e com uma palavra precisa: o Filho procede do Pai como a luz da luz, sem diminuir nem se separar; é gerado, não feito; é consubstancial (homooúsios), da mesma substância do Pai.",
    "A palavra não está na Bíblia, e por isso foi contestada durante décadas. Atanásio a defendeu como a única que dizia com exatidão o que a Escritura ensina: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). E, se tudo foi feito por meio dele (Jo 1,3), ele mesmo não está entre as coisas feitas."
   ],
   "heresias": ["arianismo"],
   "refs": ["Jo 1,1", "Jo 10,30", "Jo 14,9", "Hb 1,3", "Cl 1,16"],
   "busca": "deus verdadeiro de deus verdadeiro|consubstancial|gerado, nao criado|gerado e nao feito|todas as coisas foram feitas por|tudo foi feito por (ele|meio dele)|por meio dele todas as coisas|resplendor da (sua )?gloria|eu e o pai somos um"
  },
  {
   "titulo": "A encarnação",
   "texto": "Por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou do Espírito Santo e da Virgem Maria, e se fez homem.",
   "grego": "τὸν δι᾽ ἡμᾶς τοὺς ἀνθρώπους καὶ διὰ τὴν ἡμετέραν σωτηρίαν κατελθόντα ἐκ τῶν οὐρανῶν καὶ σαρκωθέντα ἐκ Πνεύματος Ἁγίου καὶ Μαρίας τῆς Παρθένου καὶ ἐνανθρωπήσαντα,",
   "comentario": [
    "O motivo da encarnação vem primeiro: por nós e para a nossa salvação. O Filho eterno não deixou de ser Deus, mas assumiu uma natureza humana completa, nascida da Virgem Maria pela ação do Espírito Santo (Lc 1,35).",
    "Cada palavra fecha uma porta. “Se encarnou” responde aos docetas, para quem o corpo de Cristo era só aparência. “Da Virgem” responde aos ebionitas, que o tinham por filho natural de José. “Se fez homem” responde a Apolinário, que negava a Cristo uma alma humana. Cinquenta anos depois, o Concílio de Éfeso (431) tirou a consequência: se quem nasceu de Maria é o próprio Filho de Deus, ela é Theotókos, Mãe de Deus."
   ],
   "heresias": ["docetismo", "ebionismo", "apolinarismo", "nestorianismo"],
   "refs": ["Jo 1,14", "Lc 1,35", "Mt 1,18", "Gl 4,4", "Fl 2,6"],
   "busca": "se fez carne|verbo se fez|nasceu da virgem|da virgem maria|nascido de maria|encarnacao|se encarnou|encarnou-se|se fez homem|fez-se homem|feito homem|mae de deus"
  },
  {
   "titulo": "A paixão sob Pôncio Pilatos",
   "texto": "Foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado.",
   "grego": "σταυρωθέντα τε ὑπὲρ ἡμῶν ἐπὶ Ποντίου Πιλάτου, καὶ παθόντα καὶ ταφέντα,",
   "comentario": [
    "O nome de Pôncio Pilatos, governador da Judeia de 26 a 36, põe a fé dentro da história: a salvação aconteceu num lugar e numa data, e não no mundo dos mitos. Inácio de Antioquia já insistia nisso no começo do século II.",
    "“Padeceu” e “foi sepultado” afirmam que o sofrimento e a morte foram reais. Os docetas diziam que Cristo só parecera sofrer; alguns gnósticos contavam que outro tinha sido crucificado em seu lugar. A Igreja respondeu que, se o sofrimento fosse aparência, a salvação também seria."
   ],
   "heresias": ["docetismo", "gnosticismo"],
   "refs": ["Mt 27,2", "Jo 19,16", "1Cor 15,3", "1Pd 2,24"],
   "busca": "poncio pilatos|sob pilatos|crucificado por nos|padeceu por nos|foi sepultado|morreu por nossos pecados|morreu por nos"
  },
  {
   "titulo": "A ressurreição e a ascensão",
   "texto": "Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai.",
   "grego": "καὶ ἀναστάντα τῇ τρίτῃ ἡμέρᾳ κατὰ τὰς Γραφάς, καὶ ἀνελθόντα εἰς τοὺς οὐρανούς, καὶ καθεζόμενον ἐκ δεξιῶν τοῦ Πατρός,",
   "comentario": [
    "É a fórmula mais antiga da fé, que Paulo diz ter recebido e transmitido: Cristo “morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Cor 15,3-4). “Segundo as Escrituras” liga a Páscoa às promessas feitas a Israel.",
    "Ressuscitou com o mesmo corpo, agora glorioso, e subiu aos céus: a humanidade assumida pelo Filho entrou na glória de Deus. Estar sentado à direita do Pai, imagem tirada do Sl 110, quer dizer partilhar do seu poder e do seu reinado."
   ],
   "heresias": [],
   "refs": ["1Cor 15,3", "Lc 24,1", "At 1,9", "Sl 110,1", "Hb 1,3"],
   "busca": "ressuscitou dos mortos|ressuscitou ao terceiro dia|ao terceiro dia|ressuscitou-o dos mortos|a direita do pai|a direita de deus|subiu aos ceus|subiu ao ceu|sentado a direita|assentado a direita"
  },
  {
   "titulo": "A vinda gloriosa",
   "texto": "De novo há de vir em glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.",
   "grego": "καὶ πάλιν ἐρχόμενον μετὰ δόξης κρῖναι ζῶντας καὶ νεκρούς· οὗ τῆς βασιλείας οὐκ ἔσται τέλος.",
   "comentario": [
    "Os cristãos vivem à espera da vinda gloriosa de Cristo, a parusia: “Maranata”, vem, Senhor (1Cor 16,22; Didaquê 10). Ele virá como juiz de todos, vivos e mortos (At 10,42; 2Tm 4,1).",
    "“E o seu reino não terá fim” vem das palavras do anjo a Maria (Lc 1,33). A frase não estava no Credo de Niceia e entrou no texto de 381 contra Marcelo de Ancira, acusado de ensinar, como os modalistas, que no fim o reino do Filho acabaria e ele voltaria a se dissolver no Pai."
   ],
   "heresias": ["modalismo"],
   "refs": ["Lc 1,33", "At 10,42", "2Tm 4,1", "Mt 25,31", "Ap 22,20"],
   "busca": "julgar os vivos e os mortos|julgar vivos e mortos|juiz dos vivos e dos mortos|vivos e os mortos|reino nao tera fim|vira em sua gloria|vira em gloria|vira para julgar|vinda do senhor|vinda de nosso senhor"
  },
  {
   "titulo": "O Espírito Santo",
   "texto": "E no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, que falou pelos profetas.",
   "grego": "Καὶ εἰς τὸ Πνεῦμα τὸ Ἅγιον, τὸ κύριον, τὸ ζωοποιόν, τὸ ἐκ τοῦ Πατρὸς ἐκπορευόμενον, τὸ σὺν Πατρὶ καὶ Υἱῷ συμπροσκυνούμενον καὶ συνδοξαζόμενον, τὸ λαλῆσαν διὰ τῶν προφητῶν.",
   "comentario": [
    "O Credo de Niceia terminava com “e no Espírito Santo”. Quando os pneumatômacos, “adversários do Espírito”, passaram a dizer que o Espírito era uma criatura a serviço de Deus, o concílio de 381 respondeu sem palavras novas, só com a linguagem da Bíblia e da liturgia: ele é Senhor e fonte de vida (2Cor 3,17; Jo 6,63), procede do Pai (Jo 15,26) e recebe a mesma adoração e a mesma glória que o Pai e o Filho. Quem é adorado com Deus é Deus.",
    "“Que falou pelos profetas” afirma que o mesmo Espírito inspirou o Antigo e o Novo Testamento (2Pd 1,21), contra Marcião, que rejeitava as Escrituras de Israel."
   ],
   "heresias": ["pneumatomacos", "marcionismo"],
   "refs": ["Jo 15,26", "Jo 14,16", "2Cor 3,17", "2Pd 1,21", "Mt 28,19"],
   "busca": "procede do pai|espirito vivificante|espirito que da a vida|o espirito e que vivifica|falou pelos profetas|falou por meio dos profetas|paraclito|em nome do pai e do filho e do espirito santo"
  },
  {
   "titulo": "A Igreja",
   "texto": "Em uma só Igreja, santa, católica e apostólica.",
   "grego": "Εἰς μίαν, ἁγίαν, καθολικὴν καὶ ἀποστολικὴν ἐκκλησίαν.",
   "comentario": [
    "A fé na Igreja vem depois da fé no Espírito, porque é o Espírito que a reúne. Ela é una, porque há “um só corpo e um só Espírito” (Ef 4,4); santa, porque Cristo a santifica (Ef 5,25-27); católica, isto é, universal, palavra que Inácio de Antioquia foi o primeiro a usar para ela; apostólica, porque está fundada sobre os apóstolos e guarda o ensinamento deles pela sucessão dos bispos.",
    "Nos séculos III e IV, os cismas de Novaciano e dos donatistas levaram os Padres a pensar a unidade e a santidade da Igreja. Cipriano escreveu que “não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe”, e Agostinho lembrou aos donatistas que a Igreja, espalhada por toda a terra, é santa por Cristo, e não pela perfeição dos seus membros."
   ],
   "heresias": ["novacianismo", "donatismo"],
   "refs": ["Mt 16,18", "Ef 4,4", "Ef 2,19", "Jo 17,21"],
   "busca": "igreja catolica|uma so igreja|unidade da igreja|um so corpo|edificarei a minha igreja|sobre esta pedra|igreja santa|igreja de deus que"
  },
  {
   "titulo": "O batismo",
   "texto": "Confessamos um só batismo para a remissão dos pecados.",
   "grego": "Ὁμολογοῦμεν ἓν βάπτισμα εἰς ἄφεσιν ἁμαρτιῶν.",
   "comentario": [
    "“Um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,5). O batismo une a Cristo e perdoa todos os pecados (At 2,38); por isso não se repete.",
    "A frase guarda a memória de uma longa controvérsia: era preciso batizar de novo quem tinha sido batizado por hereges ou cismáticos? Depois do debate entre Cipriano e o bispo de Roma Estêvão, no século III, prevaleceu a tradição romana: o batismo dado em nome da Trindade é obra de Cristo, e não do ministro, e não se repete. Agostinho sustentou essa tradição contra os donatistas, que rebatizavam os que vinham da Igreja."
   ],
   "heresias": ["donatismo"],
   "refs": ["Ef 4,5", "At 2,38", "Rm 6,3", "Mt 28,19", "Jo 3,5"],
   "busca": "um so batismo|remissao dos pecados|batismo de penitencia para|batizados em nome|batizai-as em nome|batizai em nome"
  },
  {
   "titulo": "A ressurreição e a vida eterna",
   "texto": "Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século que há de vir. Amém.",
   "grego": "Προσδοκῶμεν ἀνάστασιν νεκρῶν καὶ ζωὴν τοῦ μέλλοντος αἰῶνος. Ἀμήν.",
   "comentario": [
    "O Credo termina na esperança. Não espera só a imortalidade da alma, ideia comum entre os gregos, mas a ressurreição dos mortos: o corpo, criado por Deus, será transformado e glorificado como o de Cristo (1Cor 15,42-44).",
    "Os gnósticos desprezavam a carne e negavam que ela pudesse ser salva. Ireneu, Tertuliano e outros Padres defenderam a ressurreição da carne como consequência da criação e da encarnação: Deus não abandona o que fez nem o que o seu Filho assumiu. O “século que há de vir” é a vida eterna, que já começa agora pela fé (Jo 17,3)."
   ],
   "heresias": ["gnosticismo"],
   "refs": ["1Cor 15,12", "1Cor 15,42", "Jo 5,28", "Jo 11,25", "Ap 21,1"],
   "busca": "ressurreicao dos mortos|ressurreicao da carne|ressurreicao dos corpos|vida eterna|seculo futuro|seculo vindouro|seculo que ha de vir|mundo que ha de vir"
  }
 ],
 "filioque": {
  "depois": 8,
  "titulo": "Uma palavra a mais no Ocidente",
  "texto": "A partir do século VI — no Concílio de Toledo, em 589, e depois em todo o Ocidente —, acrescentou-se ao Credo “e do Filho” (em latim, Filioque): “que procede do Pai e do Filho”. O texto aprovado em 381 diz apenas “que procede do Pai”. O acréscimo tornou-se um dos pontos de desacordo entre as Igrejas do Oriente, que não o aceitam, e a Igreja latina, que o entende como expressão legítima da mesma fé: o Espírito procede do Pai, fonte primeira, e por meio do Filho, que o envia (Jo 15,26; 16,14-15)."
 }
}
